quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Daqueles bem digno
Da Academia Brasileira de Letras
Daqueles que fazem chorar
A mais funda das almas pedrejadas do mar
Dedicado ao meu amor
E tudo aquilo que rima com dor, louvor, p
avor e cantor
Mas para quê tudo isto?
Se vejo metáforas em seu sorriso
Literatura em sua alma
Letrinhas nos seus olhos
Vírgulas nas ondas dos seus cabelos
Exclamações em suas risadas
E reticências no seu silêncio?
Ah, coração
Que se esvaiam as palavras
Se posso olhar para dentro do meu amor
Não entendem vocês?
É de lá que sai toda a inspiração
Dos grandes poetas
Sinto e vejo tudo isto
Antes mesmo de virar tinta
Amo e tenho meu amor
Antes mesmo de me preocupar com rima
sábado, 25 de outubro de 2008
Dengoso e gostoso como um amor
Eu sei
Sinuoso
E rolar neste som virtuoso
Enquanto você diz, inescrupuloso:
Simpática.
domingo, 12 de outubro de 2008
Os homens trocam as famílias
As filhas, filhas de suas filhas
E tudo aquilo que não podem entender
Os homens criam os seus filhos
Verdadeiros ou adotivos
Criam coisas que não deviam conceber
O tempo passa e nem tudo fica
A obra inteira de uma vida
O que se move e
O que nunca vai se mover
O passado está escrito
Nas colunas de um edifício
Ou na geleira
Onde um mamute foi morrer
O tempo engana aqueles que pensam
Que sabem demais que juram que pensam
Existem também aqueles que juram
Sem saber
(Nenhum de nós)
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
sábado, 29 de setembro de 2007
domingo, 16 de setembro de 2007
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
retardou no meio
acabou na partida
das partes envolvidas
envolveu o centeio
a uva passa e a comida
de algumas idéias travestidas
Findou-se no ar da expectativa
esmoreceu pelo ralo dos olhos
e ressuscitou ao segundo dia
permitindo a veia e a saliva
das palavras não resolvidas
_____________
A mar
melancolias de marfim
em estruturas de mármore
definindo martelos
em ferida marcada
não ouse amar,
ele disse
Sem amar,
eu respondi
Não tenho fim,
acumulo amores
para não tê-los
Sou deserto em cada
desejo teu.
O mar deveria ser feminino.
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
O. Tetiro e M. Teponho
Te tiro dos pensamentos você volta
Te tiro do coração você não sai
Te tiro da realidade você fica
Te tiro quociente você divide
Te tiro da inércia você rotina
Te levo a sério você brinca
Te ponho potencial você cinética
Te ponho na espera você se atrasa
Te ponho consciente você sub
Trai
Te ponho mente você verbo
Te ponho ão você inho
Te conto piada e você hipo
Como isto?
Do sacro tiro
Do ufano ponho
Tiro ufano ao longe
Sacro ponho laico
Erra quem diz aramaico
Passa longe quem manda flores
Chega perto quem espanta amores
Um grito surdo da dialética
Quebra o dedo virado para o céu
E amputa o pé preso à terra
Entre as mutilações
Vos apresento:
O ponto Tetiro e M ponto Teponho
sábado, 28 de julho de 2007
Hoje, fui parar, muito por acaso, em uma cerimônia de casamento espírita.
Participei, ou melhor, assisti de camarote o dia mais feliz da vida de alguém. Não deixei de provar, é lógico, do meu próprio veneno ao constatar o sorriso largo da mulher, o brilho nos olhos, a confiança de uma vida inteira juntos... e o olhar preocupado do homem, uma ânsia pelo fim da cerimônia e, quase podendo ler sua mente, “agora as contas sou eu quem pago”.
Pessimismos à parte, concentrei-me na mulher e prestei atenção a cada passo, a cada hesitação, em tudo que eu pudesse recolher de informações para guardar no pacote: “O dia mais feliz da vida de um ser humano é assim:...”.
Em meio a estas divagações, recolhi-me ao meu subconsciente para encontrar os dias mais felizes da minha vida. Sem papo enojado de auto-ajuda; e felicidade é o tema mais explorado e inacabado das mesas de bar. Não perderei meu tempo dizendo que ela não existe, não é? Não precisa.
De olho na noiva, fui buscar minhas reações e onde eu estava quando...
Dei meu primeiro beijo. Rá! Graças à ajuda da Carolina, uma amiga: ela olhou para mim e disse: “Ana Clara, seus olhos estão brilhando de felicidade!”. Sim, eu soube que aquele seria um dia marcante, mas só – e somente só - porque alguém me contou.
O filme da vida continua rolando... amizades, conquistas, momentos como... este? Não. Este! Também não. Quem sabe aquele? Huumm... pensando bem, não. E aquele outro? Será... acho que não.
Não encontrei. Erra quem ousa pensar que eu sou uma pobre garota infeliz, mas nada se comparava às reações, aos anseios, às expectativas que a noiva estampava no rosto.
Parei, de repente, quando soube que passei no vestibular. Lembro-me que estava em um churrasco, minha mãe ligou, deu a notícia e eu saí gritando, pulando, abraçando a todos, eu não conseguia conter um sorriso de orelha a orelha e falava sem parar da minha alegria.
Esta reação, definitivamente, não tinha semelhança alguma com aquela mulher reservada e contida num vestido branco, mostrando os dentes e olhos brilhantes.
Para manter a relação um pouco mais equivalente, corri rapidamente o filme com o seletor de imagens ligado no item relacionamentos. 48 horas, cinco meses e 30 dias. Diluído por este período estão os dias felizes da minha vida ao lado de alguém. Já os dez anos restantes....
Recolhi as pétalas do chão, guardei-as em um envelope e escrevi:
“Registro que hoje, dia 28 de julho de 2007, alguém estava realmente feliz. Muito feliz.”
sexta-feira, 27 de julho de 2007
quinta-feira, 14 de junho de 2007
O tempo desgasta as metáforas e fortalece os mitos.
Ainda luto pelas metáforas
Pela descrença nos mitos
Sem matar o ser humano
Sem buscar o tempo perdido
Impossível
Improvável
E eu digo
Imperceptível
Incalculável
segunda-feira, 14 de maio de 2007
com voz doce e olhar pueril
que o amor saía da saia
Perguntei:
Por quê?
É quando as pernas se encontram.
sábado, 12 de maio de 2007
O pacote de momentos destinado à ininterrupta monotonia da rotina pode ser dissolvido e ingerido num gole de suco de caju. Um líquido amarelo, meio cor de burro quando empaca (se fugisse ainda teria algum quê de dinamismo), gosto de água com açúcar e duas medidas de engodo. Um secreto fingir que tomamos algo prazeroso e no fundo só água, açúcar, rotina e caju. A bílis de minha raiva, outrora um ode à fuga da mesmice, torna-se aquele amarelento embaçado, fruto do tempo passado que acalma os ânimos e nos fazem voltar ao... mesmo. Caju.
Mesmo, mesmo, sempre o mesmo. Não! Basta!
Eu quero beber o veneno de minha raiva; o licor da minha sedução; o ácido dos meus pensamentos; a cicuta do meu ego; a água dos meus prazeres. O leite do teu deleite; o vinho de teus olhos; o soro dos teus defeitos; e até o óleo de fígado de bacalhau da tua forma de amar, mas não aceito o mesmo. Esta mistura fajuta de prazeres comprados com dissolução certa e modo de preparo; servida em copos infinitamente iguais para pessoas esquizofrenicamente iguais num comportamento enojadamente normal.
Façamos a nossa festa! Destruamos os copos de mesmice e toda a sala de jantar!
sábado, 28 de abril de 2007
Eram em três. Enquanto Vérges procurava incessantemente dar conta de duas mulheres afoitas por sua atenção, uma instância superior, onisciente, onipresente observava milimetricamente cada passo daquela conversa: eu, a narradora. Mas, antes que me julguem prepotente (nós, os narradores, sempre o somos, porém dificilmente explicitamos. Afinal, atualmente, não é muito vendável não fazer com que o leitor acredite que ele é o máximo), preciso avisá-los de que eu sou uma das mulheres da conversa. Compartilho daquele momento, mas tenho poderes – que a ficção me permite adquirir – de, a cada quinze minutos, sair de mim mesma e situar-me num ponto superior, acima daquelas três cabeças banais jogando conversa fora. O ângulo é exatamente o centro da mesa, superior aos mortais, como se simplesmente eu tivesse amarrado minhas ancas nas vigas do telhado e observasse tudo como um anjo pelado tocando trombetas (apesar de procurar manter o silêncio durante a ascensão).
Vérges dirigia todo o assunto da conversa com uma destreza artesã. Cada movimento de sua mão era capaz de provocar uma mudança brusca nos temas tratados, uma parada repentina ou um silêncio absoluto para dar espaço às suas colocações. Tinha o controle dos olhos e ouvidos das mulheres em cada gesto de seus dedos, em cada indicador apontado, em cada afago no cabelo. Frolaine era uma; e eu, a outra. Frolaine contestava todas as observações de Vérges, mas era logo vencida pela levantadinha do óculos e dois argumentos. Sem base, não havia discussão. Quanto a mim, só posso dizer durante a ascensão; afinal, qualquer colocação agora, soaria como um falsete tanto em relação a mim, quanto à Frolaine. Posso dizer que eu admirava cada gesto daquele rapaz que prendia a minha atenção, não mais do que isto.
Vérges, Frolaine e eu tínhamos muito em comum. Era a isto que se devia aquele encontro. Frolaine sempre acreditou que conquistaria Vérges com suas implicâncias, apostara toda a adolescência em Vérges, mas ele sempre a tratara como uma irmã e, ficar com ela, segundo sua própria ironia e sarcasmo, era incesto. Eu desprezei, durante a mesma adolescência esperançosa de Frolaine, o próprio Vérges, enquanto este rapaz, hoje preferido entre as mulheres, acusa-me de tê-lo ensinado a crueldade com as mademoiselles.
