sábado, 31 de março de 2007

A matemática é sábia: fez regra de três, não de dois. Deve ser por isto que sempre procuro a variável que falta para compor a equação de nosso destino. Bato o lápis na mesa, passo a mão nos cabelos, arrumo meu óculos com os dedos, seguro e solto o papel, incansável.
Quando voltar da briga, passe na cozinha: verá meu boletim com nota vermelha, na porta da geladeira, sob um imã de côco gelado que trouxe da praia.
[Cuba, terça-feira, 19 de março]

Miniatura
Em casa de José Martí tive um estalo. Na verdade, este "estalo" começou no museu da Plaza de La Revolución, passou pelo monumento em Santa Clara e aflorou, ainda de forma primitiva, na casa de José Martí.
A partir do auto-questionamento da cubana que me acompanhava sobre a veracidade do conteúdo de uma carta, que, segundo as especificações, foi a última coisa que Martí escreveu, comecei a dar-me conta dos tipos de de objetos expostos para legitimar a revolução.
Assim foi até que, no museu de Che, em Santa Clara, ao ver alguns objetos, pus-me a pensar como uma coisa tão específica e ao mesmo tempo tão genérica pôde parar ali. Falo, por exemplo, de "a seringa que Che usou no dia X para salvar fulano da doença Y". A não ser que Che já se considerasse futura peça de museu e/ou todos os que estavam ao seu redor, é praticamente inviável conseguir este objeto. Poderemos até considerar a possibilidade de uma obsessão compulsiva de alguém em guardar e registrar coisas... ainda que isto aconteça, há uma certa inviabilidade nesta história. Afinal, uma seringa é uma seringa, em qualquer parte, e a seringa-que-Che-usou-no-dia-X-em-fulano é a "seringa-que-Che-usou-no-dia-X-em-fulano", entendem? Não sei, mas algo soa estranho neste jogo generalidade/especificidade.
Isto tornou-se um pouco mais complexo na casa de José Martí. Em meio a outros cacarecos - como de Che - cheguei a uma "réplica [em tamanho real] da mesa X, do dia y, em que estavam A, B e C assinando o documento W". Aceito que esta probabilidade (até mesmo se fosse a mesa original) é mais viável que a seringa, mas dei-me conta de que entre a réplica e o original, para a grande maioria dos visitantes, não fazia mínima diferença.
Primeiro porque poucos leêm o que está escrito (pus-me a observar os alheios por alguns instantes); segundo porque o deslumbramento e a superficialidade de interesse são os mesmos entre um e outro (supondo, é claro, que seja "verdade" o que é réplica assinado como tal e o original é original assinado como tal); e terceiro porque, a fundo, ambos são réplicas: alguns anacrônicos, outros, nem tanto, alguns assinalados, outros nem tanto.
O estalo se deu mesmo quando vi uma miniatura do púpito de onde falou José Martí para um determinado público. Não estava escrito "réplica" posto que era óbvio, afinal era miniatura. Porém a legenda tratava o objeto como se estivéssemos diante exatamento do pleito onde estava JM.
Por ser tão grosseiro o câmbio entre "réplica" e "original", a linguagem não sentiu necessidade (e mesmo eu não a viria) de apontá-lo. Agora, e quando o câmbio é mais singelo, ou mais difuso, ou mais curto? E se alguém tivesse uma super lente de aumento grudada em seus olhos e visse a tal miniatura em tamanho da coisa? Se tivesse que se guiar pela descrição, esta pessoa era capaz de prostrar-se diante do tal pleito para reverenciá-lo.
Miniatura é miniatura, para o plano das palavras: escrever é reduzir; editar, por supuesto. Como "avisar" as pessoas das transformações/mudanças que ocorrem entre o que se acontece e o que é escrito? Colocar uma nota de rodapé "atenção: o câmbio entre a realidade e o que está escrito pode provocar alterações danosas aos fatos" creio que não é a melhor solução e tampouco despertará a inquietude que gostaria de despertar.
[...]

quinta-feira, 29 de março de 2007

Abre parênteses

A culpa é da vaca
Como se não bastasse a enxurrada de notícias manipuladas para fazer-nos crer que estamos num país melhor, que cresce, que estuda, que isto, aquilo e aquilo outro, eu sou 'obrigada' a ler que a vaca é uma das - prestem atenção - prin-ci-pais responsáveis pelo efeito estufa na atmosfera. Ahn?! Isto mesmo que vocês leram. E o melhor da história: os responsáveis são o arroto e o... ahhnn... bem... as flautulências do animal. É mole? Coitada da vaca, nem pode soltar seus puns e arrotos direito e cientistas alemães já estão fazendo pílulas para conter este gases - metanol - nocivos que saem da pobre bovina. E ainda têm a estapafúrdia de dizer que, com este tratamento, o leite pode até sair melhor.
Até onde eu sei, a vaca só come grama e outras coisinhas que crescem com raíz na terra. Se os gases dela são tão representativos na formação do efeito estufa, os nossos são o que?! Devem atingir a órbita de Marte ou os anéis de Saturno em larga escala e à velocidade da luz.
A vaca existe até mesmo antes da gente, digo gente como a gente-ser-humano-que-pensa. E mesmo se tiver vindo depois, já teria alguma legitimidade em viver neste planeta, afinal, os orientais a têm como deusa muito antes da primeira festa de navidade. Pobre orientais... se soubessem do resultado da decomposição em sua deusa.
E ainda já ouvi "Faz sentido. Há mais vaca do que carro neste planeta". Estou com medo deste animal agora, qualquer hora posso aspirar este ar indesejável e encontrar-me em precárias situações respiratórias e risco de morte. E o leite, meu Deus, e o leite?
Ah, sim, os carros, as indústrias petroquímicas, as grandes indústrias bélicas e outras não são páreos para a grande fúria do arroto e do pum da vaca. Como o capitalismo é capaz de tudo, não vai demorar muito para encontrarmos bovinas entubadas em grandes máquinas para fabricar mais algum produto que nos fazem crer ser necessário. Ou então uma nova coleção veterinária de remédios para o gado "Salve o planeta: Dê Luftal para o seu rebanho".
Não duvido (muito) da veracidade técnica de emissão de gases, mas, por favor, a VACA ser responsável pelo aquecimento global é falta de respeito com meus neurônios.
Vejam isto:
"Relatório da FAO diz que pecuária é responsável por aquecimento global.
Segundo o relatório, o setor é o que produz mais gases componentes do efeito, e se comparados a seu equivalente em CO2 (dióxido de carbono), são mais elevados que os produzidos no setor de transportes"
"se você realmente quer atacar as mudanças climáticas, deveria fazer com que as vacas deixassem de ruminar. De acordo com estimativas científicas, o metano produzido por esses animais é responsável por 4% das emissões de gases causadores do efeito estufa. "
Isto pode causar um racha sério e definitivo no greenpeace: "Como defender as vacas e o planeta ao mesmo tempo?". Situação difícil... humpf.
Metas para desenvolver alternativas de combustível? Pressão nos EUA para assinar (e cumprir) o protocolo de Kyoto? Investir em transformações radicais no consumo de energia? Etc etc etc... passam longe, a pauta e a culpa mesmo é daquele animal insolente que só sabe comer grama, mexer o rabo, fazer sexo, arrotar e soltar gases.
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Desculpem, não resisti.
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Fecha parênteses

segunda-feira, 26 de março de 2007

Depois de uma enorme e turbulenta onda, da água repuxada, dos caranguejos arrastados e da respiração da areia, pisei com meus pés descalços sobre a realidade úmida. Disposta a correr milhas e milhas de palavras inúteis para contar-lhes de minha viagem, fui impedida. Mal dei o primeiro passo e já tive que me acostar na beira da praia. A dor era grande: um caco de vidro pontudo e afiado estava enterrado na palma do meu pé direito e o sangue escorria incessantemente. Sentei-me então devagar na areia, cruzei as pernas, levei os olhos próximo ao membro lesado e pus-me a observar o objeto que obstou minha longa jornada. Da imensa dor que brotava dali, de toda a operação plaquética para expulsar o estranho, de toda a inflamação que estava principiando, tirei forças para arrancar à força aquele pedaço das chaves da minh'alma. Enquanto meus olhos cerravam de dor, minha respiração trancava o oxigênio e minha boca calava o grito, um homem pousou levemente suas mãos sobre mim. Em meio à confusa assimilação de sensações, senti o vidro sair e o homem desfazer-se em vento. Aliviada, percorri as mãos por trás de mim para descansar o ventre ao céu e encontrei uma rosa. Ao longo do caule, em letras minúsculas, pude ler:
"És rosa
e não consigo oferecer-te brisa
Dou-lhe o vento de toda minha fúria
para que possas tocá-la sem sentí-la"
[Volto em breve com alguns trechos do meu diário em Cuba]

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Trocando de águas
pré-relato da viagem à Cuba

Por algum tempo não poderei mais compartilhar das águas navegadas pelo mar virtual. Num movimento não tão repentino, porém abrupto, lanço minha âncora neste post que não representa o fim do Ás, apenas um ponto de silêncio com o tempo de três colcheias e duas semifusas.

Deixo todos os pacotes ortográficos, morfológicos, sintáticos e pontuais estendidos no convés ao sol, baixo a vela da semântica e acomodo-me neste porto que, sei, não é muito seguro. Para não deixar-me tão vulnerável, lançei minha vírgula ao fundo do mar, amarrada num leve fio -- porém resistente -- de coesão, atei-o à minha nau e sentei-me numa cadeira confortável no centro da proa.


Garanto: procurei um lugar agradável, com um cais bem bonito, um horizonte perdido, muitos amores partidos e vindos, uma maresia insolente e um tempo encontrado. Aquele tempo que você só reconhece em lugares perdidos... e abandonados... aqueles lugares onde a alma de todos, menos a tua, habita; e você é capaz de sentí-las todas, exceto a tua, profundamente. Até que, no último momento, na despedida, você a nota: presa ali... exatamente naquele lugar onde você achava que não a sentia.

Voltem quando quiserem, minha embarcação estará atada ao chão, e eu com a cabeça e o corpo nos ventos, em outras águas... mas deixo a cadeira de praia para leitura estendida pelo barco sedento por navegação, porém consciente do interlúdio. Sintam-se à vontade.

E se deste novo céu com novas águas puderem brotar novos escritos, voltarei tão brevemente que, mal você se estendeu na cadeira e sentiu os olhos ofuscados pelo sol, já estarei com o timão na mão, recolhendo a vírgula, içando a semântica e navegando em mares profundos e turbulentos recheados de Ás, mentiras e cores.


Hasta la vista

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Foco
Não que eu seja adepta da técnica aplicada aos fios de algodão da realidade que, com um sopro de dúvida, não sustenta nem suas próprias convicções dirá as aplicações.
Mas não resisti em estabelecer certos paralelos.
Fui cobrir uma palestra sobre Engenharia de Produção: carreira, entrevista, profissional de sucesso, valores, marketing, ativo, capital e toda a lambança de jargões empresariais que contribuíram definitivamente para a minha ascensão espiritual: uma discreta auto-sessão de "á-huuumm" para me situar, quem sabe, em meio àquele emaranhado de assuntos "profícuos".
No entanto, nada a temer, o palestrante era bom. E logo logo ele tratou do tema de forma mais concreta e amarrou todas as abstrações. Numa dessas amarrações (tenho que confessar, eu participei ativamente da palestra), ele falou sobre foco e estabeleceu-se um alvoroço em torno dos pressupostos e/ou pontos de partida do Brasil -- que não tem nenhuma perspectiva de crescimento intenso nos próximos, ai, segurem, cinquenta anos -- em relação à Índia e a China que, segundo as estatísticas malucas dos economistas, têm perspectivas gigantescas de crescimento. Papo vai, papo vem, opinião vai, opinião vem, ego vai, ego vem, cala a boca vai, cala a boca vem, o problema era foco. Vou enfatizar: FO-CO. Ou seja, o Brasil não tinha FO-CO, ao passo que os outros países possuíam um plano de desenvolvimento e todos aqueles blá-blás sociais e econômicos. Em poucas palavras, se o Brasil focasse em um, apenas um, atenção, vou enfatizar: apenas UM ou, no MÁ-XI-MO, três aspectos para investir toda a sua atenção, todos os problemas estariam resolvidos.
Pergunto: alguém acredita?
Outro dia, li um desses textos melosos sobre amor: juras eternas, meu amor pra cá, minha querida pra lá, eu te amo, você é tudo pra mim e toda a lambança de jargões românticos que contribuíram definitivamente para a minha ascensão espiritual: uma discreta auto-sessão de "ai-que-saco-mas-vamos-continuar" para me situar, quem sabe, em meio àquele emaranhado de assuntos "profícuos".
No entanto, nada a temer, o escritor era bom. E logo logo ele tratou do tema de forma mais concreta e amarrou todas as abstrações. Numa dessas amarrações (tenho que confessar: de alguma forma, aquilo estava me comovendo), ele escreveu sobre foco e estabeleceu-se o alvoroço (dos leitores) em torno dos pressupostos e/ou pontos de partida da leitora-eu -- que não tem nenhuma perspectiva de entendimento nos últimos ai, segurem, vinte e dois anos -- em relação ao leitor-eu e ao bom-leitor-eu que, segundo as estatísticas malucas dos machistas e feministas (que são machistas, ou seja, dá no mesmo), têm perspectivas gigantescas de entendimento. Papo vai, papo vem, opinião vai, opinião vem, superego vai, superego vem, loucura vai, loucura vem, lucidez vai, lucidez vem, o problema, segundo o escritor, era foco. Vou enfatizar: FO-CO. Ou seja, a leitora-eu não tinha FO-CO, ao passo que os outros leitores-eus possuíam um plano de desenvolvimento e todos aqueles blá-blás intelectuais e "esnôbicos". Em poucas palavras, se a leitora-eu focasse em um, apenas um, atenção, vou enfatizar: apenas UM ou, no MÁ-XI-MO, três aspectos para investir toda a sua sedução, todos os problemas estariam resolvidos.
Pergunto: alguém acredita?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Era uma rua inacessível ao pensamento.
E deste não pensar, não existia coisa alguma.
Não era larga, nem estreita pois isto são qualidades de quem pensa e lá não tem espaço.
Aliás, espaço tem – vazio.
E deste não ocupar, não existir e não pensar surgem coisas que existem somente neste lugar não-pensante.
Nem jardins, nem flores, nem amoras, nem amores, uma rua
apenas.

Para existir paraísos é preciso pensar
E pensar muito, ora essa
Vamos até o inferno e descobrimos o que é a dor
Para, aí sim, sentirmos o paraíso
Só sentimos grandes prazeres quando já experimentamos grandes dores
Viu só?
Duas coisas para sentir uma
Na minha rua, não
Sente-se tudo, pensa-se em nada
E não é por preguiça
É por não caber

Ou, simplesmente, para zombar do meu pensamento
Que tem em si a pretensão de preencher todos os espaços
Conhecer todos os lugares
E orientar todos os sentimentos.

Esta rua ele não conhece
Ou porque não sabe
Ou porque não cabe
Ou porque ela não existe mesmo

Mas o pensar insiste em procurá-la
E a cada tentativa infundada
A rua abre-se em contentamento
Um raio de sol ilumina os ladrilhos
A esquina esboça um largo sorriso
As águas espalham-se pela calçada
E todos os meus sonhos são refletidos

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Noves fora
De toda a minha estupidez, guardo a melhor parte para quem nutre a indiferença. Então esfrego este melaço com gosto azedo nos meus olhos para que eles não vejam o quão charmoso você é. Assim garanto os adjetivos orgulhosa, estúpida, insensível e, ah, claro teimosa e cabeça dura.
Sinto que há algo errado nesta regra de três.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Contrações

Chegou o momento em que é possível sentir tudo de todas as maneiras, viver tudo de todos os lados e ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo: rachei. De um revertério compulsivo nas minhas entranhas, nasceu incontrolavelmente várias pessoas dilaceradas em pedaços espalhados pela minha alma. Não há temor, nem razão, só o grito da necessidade. Não dessas inventadas por aí, mas daquelas que saem lá do fundo, exatamente onde toda mulher se descobre mulher... e mãe: o útero.
Por um critério nada rigoroso, decidi contar que o nascimento se deu via uterina. Apenas para criar um paralelo biológico de uma implosão da alma, assim atribuo um caráter racional para este monte de micro-corpos que começam a ganhar vida própria, como se estivessem numa incubadora ou, num plano mais interior, criando raízes férteis em solo estéril. Nada a ver com o que realmente aconteceu, visto que muitos vestígios neurais, viscerais e racionais também foram encontrados no último corpo delito que meu super ego fez (detesto quando ele faz isto) em meu interior.
De qualquer forma, este aglomerado de pedaços de carne humana – espalhado pelo mármore frio e gelado do meu próprio eu – começa a borbulhar e a sacolejar intermitentemente deixando meu outro eu (sim, tenho vários) horrorizado. Este último eu, o apavorado, é o eu que todos acham que eu sou.
E como quem levanta de um sono profundo ou de um eterno esperar-desabrochar aquele monte de coisa amórfica começou a tomar forma – e forma de coisa.
Enquanto o eu – este aqui que vocês conhecem – vendo tudo isto, resolveu dar uma volta, fumar um cigarro, arejar as entranhas e calcular o ponto de fuga mais próximo, uma criança foi deixada no mármore frio e gélido cheio de pedaços pululantes de vida e energia. É ela quem vê tudo, com o medo numa mão e a curiosidade na outra. Estas novas coisas que – sabe a criança – tornar-se-ão pessoas rastejam-se, por enquanto, pela vil e cruel solidez de minhas edificações; e a infante assiste a tudo impassível.
Até que algum eu (ou a própria criança) não lhe atribuam nomes, estes embriões sofrerão todos os espasmos que algo sem vida e, por assim dizer, sem necessidade de piedade, pode sofrer e a minha imaginação é capaz de criar.
É assim, como toda dor do parto; e, como todo fruto do mesmo, as pessoas, se nascerem, terão seus cordões arrancados impiedosa e violentamente. De modo que adquirirão autonomia, vida própria e plena liberdade, sem vínculo algum com aquela que a gerou. Isto é perfeitamente possível, pois é uma liberdade e autonomia dignas das coisas que, apesar de existirem, não existem.
Por enquanto são coisas. E, por serem, já existem. Já têm verbo, faltam-lhes os nomes. Assim sendo, não existem. Se nomeadas, serão pessoas, voltam a existir, mas não serão necessariamente eus, deixando de novamente.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

O tempo cabe num ponto final
e o futuro é um monte de reticências jogadas no céu.
Como quem juntasse todo o tempo do mundo
na mão em concha
e assoprasse inadvertidamente todos os pontos finais
que se perdem reticentes no horizonte
Não adianta buscar
estão todos perdidos
Adianta, quem sabe, voar

sem vento
sem plano
sem fogo
sem casa
sem pai
sem mãe
sem mão
sem cão
sem sim
sem não
Sim, com asa
voar e voir

No instante em que o verbo
elE,
que se uniu à virgem vírgula,
você dominar


[exercício de preparação para leitura ou "homenagem a um livro não-lido" ]

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

No meio do caminho há duas mãos

Escrevo por medo das palavras e da ausência delas.
Escrevo pelo medo do silêncio reprimido e do verbo mal usado; do silêncio mal usado e do verbo reprimido.
Escrevo para capturar alguma coisa no caminho entre o coração e o cérebro. E no meio do caminho, há duas mãos. Uma pedra em cada uma.
Forço todos os elementos da inter-comunicação, nada eficiente, entre cabeça e lado-esquerdo-do-peito a descerem alguns centímetros em direção à ponta dos meus dedos e disparo todas as fúrias sem saber exatamente a origem delas.
Mas alguma coisa anda errada: pedras se digladiam no cérebro, o coração se preocupa com a sintaxe, e as mãos estão tão meigas quanto qualquer suspiro doce do primeiro amor de uma criança.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Entre dois infernos
Há um paraíso
Que a menina observa atrás da grade

Várias borboletas circulam por ali
Umas rápido, outras devagar
Algumas duram muito tempo
Outras só se sabem que passou
Pelo cheiro de pouco ar remexido

No centro do paraíso
Há uma deusa
Cercada pelas melhores flores,
plantas, águas, ares, cores e sabores
Um altar em que se impõe o totem
Rodeado das mais belas coisas do mundo

Já o resto do lugar carecia de cuidado
Como quem oferece tudo
E até o riso lhe é negado

Neste exato momento
A menina atrás da grade teve um sonho:

Tornou-se borboleta
atravessou os liames de ferro
e soprou de longe um gostoso ar de açúcar cândi
O pássaro reverencioso, antes prostrado diante do culto,
Sentiu naquela terna brisa, trazida pelo ocaso dos ventos,
uma felicidade tamanha
Como nunca havia sentido
Então ele tornou seus olhos para o céu
Sacudiu as asas
Alçou vôo e...

De repente, a menina acordou
com o estilhaço do medo dele batendo nas grades
O pedaço viera voando lá de alguma explosão
dos confins de um dos infernos

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Para Destino Certo,
"Está-se junto com a mulher que se ama, fala-se com ela. Então, semanas ou meses mais tarde, quando se está separado dela, volta à mente aquilo de que se conversou. E agora o tema está ali, banal, cru, sem profundidade, e se reconhece: somente ela, que por amor se debruçou profundamente sobre ele, sombreou-o e protegeu-o diante de nós, de tal modo que, como um relevo, em todas as dobras e todos os ângulos, o pensamento vivia. Se estamos a sós, como agora, ele jaz raso, sem consolo e sem sombra, à luz de nosso conhecimento"
Walter Benjamin, in "Rua de mão única"

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Paletó de bolinha amarelinha

Terminei de ler "memória de minhas putas tristes", do García Marquez. Se o fosse escrever, intitularia "memórias minhas puta tristes" e deixaria um traço do jargão deste meu século perdido e condenado. Um bom romance, daqueles que te incomodam na poltrona e te fazem revirar em todas as posições para encontrar um lugar confortável. Impossível, o desconforto está nos olhos, ou melhor, nas páginas quandos são encontradas por eles.
O autor trata do amor "e por mais que lidemos com esse sentimento como se fosse um paletó dois números acima do nosso, apenas ele e tão-somente ele, o amor, nos faz humanos..." escreve o "orelhista".
Incluo-me entre as pessoas que não conseguem vestir este paletó, mas, no meu caso, eu o acho pequeno. Dois números abaixo. De modo que todas as vezes que tento vestí-lo deformo-o. Um desastre: pula botão, esgarça costura, rasga tecido ou não passa nem pela cabeça. Se entra por um braço, não alcança o outro e, se com muito custo, consegue, fico presa entre meus próprios ombros. Haja esforço para tamanha peça, há quem diga (ou melhor, jogue-me na cara) que nunca vou vestí-lo enquanto estiver com o casaco grosso e espinhudo do meu orgulho. Ora essa, mal sabem eles que este casaco eu só visto em ocasiões especiais. E se, mesmo assim, com muita paciência e dedicação, consigo encaixar todos os meus membros neste vestuário tão esquisito, sinto-me nua como Ana Maria ao olhar-se no espelho, depois de entrar na cabine.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Dois hambúrgueres, sem alface, nem queijo, nem molho especial, muito menos cebola e picles num pão com gergelim
Detesto quem repete, quem recorta uma frase do texto e diz “adorei esta frase”. Sim, acabei de fazer o mesmo e eu posso me detestar por isso, não? Detesto quem não sabe o que dizer e se agarra às pílulas de auto-ajuda para sobreviver. Sim, eu faço isto, de vez em quando, e daí? Continuo não gostando das pessoas que fazem isto, como não gosto do meu eu desesperado quando não vejo mais o brilho dos olhos dele em mim.
Como defesa, eu analiso, disseco, destrincho, reviro e biopsio todas as entranhas dele. Nenhuma vírgula escapa-me, nenhuma metonímia, nenhuma metáfora, nada. Tudo nele está escrito em cada escolha que ele faz. Eu vejo até a reticência perdida na retina escura. Defino cada ponto final com qualquer hesitação e enxergo a conclusão do capítulo só de vê-lo dormir. Para cada canto que ele olha há um parágrafo, para cada gesto uma síntaxe e para cada silêncio uma obra enciclopédica de 16 volumes.
Daí aparece a mãe Dinah, retira uma frase de todos os meus escritos e acredita ter encontrado a solução. Não é bem assim, dona bruxa sabichona, seus astros não entendem nada de gramática. Eles não vêem que minha oração subordinada é dirigida aos céus e se perde na coordenação precisa das estrelas. Para entender meus sentimentos, é preciso encontrar o amor espremido em duas fatias grossas de ódio com intoleráveis advérbios, adjuntos, adjetivos, vocativos e todas as perfumarias sintáticas enroladas num canudinho e fincadas – de fora a fora – neste sanduíche indigesto com uma cereja-romance na ponta.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

É muito fácil refutar minhas idéias. Facílimo. Até uma criança, em sua mais profunda inocência, desconstruiria, sem dificuldade, todas as minhas conjecturas acerca de qualquer coisa com a mais banal das perguntas. Simples. Meus textos são falhos. Como tudo é falho. Pensando sobre isto, tentarei justificar-me.
Antes, ponderações: não vou provar que meus textos não são falhos – portanto, se houve este lampejo, pode parar por aqui e aguardar outro post; esta justificativa será tão limitada quanto qualquer outra; o motivo que exporei aqui serve como mote para todos os escritos anteriores, presentes e posteriores.
A minha constatação partiu de uma premissa simples: meu pensamento está preso nos grilhões da linguagem. Estou ciente de que não há pensamento sem linguagem, e também de que o primeiro depende visceralmente da segunda. Explico-me: suponhamos que a defesa de qualquer “pensamento” meu fosse passível de exposição dentro da minha própria mente. Ou seja, todos os “ataques” a qualquer idéia minha se daria no nível (imaginário) do meu subconsciente; não seria necessário, portanto, transpô-la para uma linguagem “externa”, pois o debate seria “interno”. Se assim fosse, acredito que eu, ou até mesmo todo mundo, teria a inimaginável e praticamente inalcançável capacidade de defender rigorosamente – sem cair em contradições, reducionismos, exageros metafísicos ou pragmáticos, escassez teórica, etc – todas as suas idéias e torna-las-ia irrefutáveis . No entanto, daí a genialidade de poucos autores, o cerne do raciocínio está em justamente fazer esta transposição entre o pensamento e a linguagem. E quanto mais clara é a passagem, maior a capacidade sintética do autor.
Quanto a mim, ainda sinto-me (e assim estou) presa pela jaula da linguagem. Raras vezes consigo abrir uma fresta e libertar algum pensamento, mas está tão putrefato que, não é difícil, quando sai, já não faz mais sentido algum. Como isto se chama? Nua e cruamente: ignorância.
Imaginemos que há um momento anterior à transposição. Uma espécie de reserva de “pensamentos” que qualitativamente não representa nada, pois não passa de um esboço estúpido, um zigoto amorfo. À medida que as hastes da linguagem vão sendo retiradas – ou seja, utilizadas –, elas oferecem forma àquele potencial hiberno (lembrem-se que, como “zigoto”, sua capacidade de reprodução e crescimento é intensa) e luz para o seu desenvolvimento, já que o tira da “gaiola”.
Para entender a complexidade deste nascimento, é-me necessário também salientar a disposição das hastes que compõe a jaula: elas não são arranjadas de forma vertical e horizontal organizadas perfeita e coerentemente. O entrelaçamento entre as diferentes variáveis que compõe a linguagem cria um emaranhado complexo de significantes, significados entre jogos semânticos que, por muitas vezes, a retirada de uma simples “haste” depende da articulação e, portanto, conhecimento de várias outras “hastes”. Todavia, a consciência prévia de “hastes mestras” pode ajudar e muito a desencadear uma série de desobstruções em larga escala, como se encontrássemos o fio exato para desfazer uma longa meada.
Há exceções, claro, como alguns pensamentos cuja estadia deve permanecer “fermentando” e hibernando na jaula para sair com mais potencial ou, no mínimo, com maior poder de síntese. Afinal, abrir a jaula para um monstro raivoso, ainda torto, com cara de Fred Kruegger, instinto de Jack, o estripador, é preferível manter a jaula trancada para lapidar tamanha estupidez. De resto, muitos de meus pensamentos ainda borbulham dentro da jaula, poucos são os que saem, pois minha linguagem é muito limitada e não quero arriscar um colapso absoluto das poucas idéias sãs que brotam de mim.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Menina estranha

No segundo ano de faculdade, minha maior inquietação era saber se tudo aquilo que interpretamos de um determinado livro, música ou poema – geralmente clássicos – o autor realmente pensou para escrever. As respostas variavam de acordo com a aproximação espiritual e afetiva das pessoas questionadas com o autor ou do “status intelectual” da obra na sociedade. Por exemplo, um Charles Baudelaire, com certeza (segundo algumas pessoas que possuem certa autoridade no assunto), pensou, re-pensou e re-re-pensou em cada artigo, adjetivo, advérbio, metáforas e metonímias; Chico Buarque, idem; João Cabral, idem e etc. Como disse, varia. Certas pessoas não acreditam que Victor Hugo tenha tanto “status” (desculpe, mas falta-me vocabulário para definir uma posição não limitada perdida numa nuvem grosseira de ego, mesquinharia, esnobismo e, raras vezes, crítica) assim como Fernando Novais e outras figuras não tão conhecidas assim. Há também quem tenha me dito que este questionamento é irrelevante.
Eu não tenho a mínima autoridade e, tampouco, autonomia no assunto, portanto só colhi opiniões, impressões e Pilatos – aqueles que dizem “eu acho porque gosto” e lava as mãos. O que diminuiu minha ânsia e, conseqüentemente, trouxe-me uma explicação um tanto pertinente, foi uma palestra.
Não necessariamente tu-do o que autor escreve, ele pensou numa interpretação segunda, terceira ou quarta. Porém, o trabalho de quem analisa minuciosamente um texto não é em vão, afinal, de uma forma ou de outra, o autor/obra é a expressão do seu tempo. E, a partir da imparcialidade que a distância do tempo e da própria obra (por não ser o autor) permite, podemos encontrar dados do inconsciente coletivo da época que não passaram, necessariamente, pelo crivo racional do escritor. Sendo assim, ao escarafunchar textos literários, da lagarta que come o tempo, pode nascer uma interpretação-borboleta e, melhor ainda, que voe sozinha.

Cara estranho
Dado isto, pus-me a pensar sobre os considerados “lixos” em massa que a nossa sociedade produz atualmente. Afinal, convenhamos, analisar textos e obras para entender um século de explosão intelectual é uma coisa, revirar as carcaças da produção cultural deste início de século “perdido” e “condenado” é outra. Sim, que me chamem de abutre, mas dirijo-me às produções terrenas com vontade, curiosidade e uma certa esperança. Pois a nostalgia pedante, a arrogância do culto e a soberba intelectual causam-me náuseas muito mais profundas de modo que, nem com esperança, vontade e, muito menos, curiosidade ouso bater minhas asas pretas em sua direção.
Isto posto (bingo para quem conseguiu ler até aqui), posso falar a respeito da música “Cara estranho” do Los Hermanos. Não estou aqui para julgar a qualidade musical, muito menos, a capacidade do compositor e, menos ainda, venerar ou subtrair qualquer atributo (bom ou ruim) da obra. Logo que ouvi, apesar de não ter entendido muita coisa além da primeira estrofe, percebi que há algo notável e latente: a música trata do indivíduo da sociedade moderna (se é eficiente ou não, deixo para vocês). Escolhi alguns trechos:

“Olha lá, que cara estranho que chegou
Parece não achar lugar
No corpo em que Deus lhe encarnou
[...]

Exibe à frente o coração
Que não divide com ninguém
Tem tudo sempre às suas mãos
Mas leva a cruz um pouco além
Talhando feito um artesão
A imagem de um rapaz de bem”


Já que autor/obra é expressão do seu tempo...

“Cara estranho...” faz referência à esquizofrenia, várias de nossas relações humanas, atualmente, são marcadas por algum traço esquizofrênico. O fato de “não achar lugar...” é uma das principais características do neurótico que não se encontra em si mesmo. Aliás, em outro trecho a música também diz “Periga nunca se encontrar/ será que ele vai perceber/ que foge sempre do lugar”.
Quando o autor diz “no corpo em que Deus lhe encarnou”, ele já aponta a influência da Igreja Católica (ou qualquer outra instância religiosa que tenha Cristo como crença, pois, mais à frente, ele se refere à cruz) na formação do indivíduo. No trecho “exibe à frente um coração”, podemos encontrar referência ao amor, sim, mas daqueles enlatados que se compra na loja Claro por R$ 49,90 com mil reais de ligação grátis como a própria música deixa nas entrelinhas. “Que não divide com ninguém”, narcisismo, ou seja, o amor a si mesmo. Isto soa familiar, não? Podemos todos comprar na loja Claro, mas a nota fiscal vai no seu nome, sa’qualé?
“Tem tudo sempre às suas mãos”, ora essa, isto dava um livro. Não tivemos um século com tantas, hum, “facilidades” em vários aspectos. Para os pouco abastados, crédito em abundância. Para os muito abastados, poder sobre os outros, cada vez maior. No plano tecnológico, nunca pudemos fazer tantas coisas com apenas um clique. Nunca foi tão fácil conseguir mulher, jogo, dinheiro e produto. Tudo virou mercadoria e, pior, comprável com cartão de crédito. Quanto aos nada abastados, tudo está negado desde que o capitalismo ascendeu.
“Mas leva a cruz um pouco além”. Arrá! Este trecho é um dos que mais gosto. O capitalismo é perverso, mas as pessoas não podem ser ou, pelo menos, parecer. Neste ponto, entra o ideal de auto-sacrifício e filantropia católica.
Está implícito que o cara estranho carrega uma cruz seja ela da sua própria existência, ou do peso social que carrega cada vez que compra um produto do shopping, ou da Igreja que trabalha o sentimento de culpa e pecado constantemente, ou, estrito senso, a própria cruz de Cristo. Esta linha de raciocínio segue ao longo do trecho “talhando feito um artesão”. A oposição ao que é industrial – “homo-faber” – remete o indivíduo a um estágio anterior da mercadoria, da indústria, enfim, àquele romantismo da produção artesanal “ingênua” e familiar. Ao talhar, com as mãos de um artesão, “a imagem de um rapaz de bem”, a música conclui, neste período, a formação do indivíduo no plano moral. Se o indivíduo tem que talhar esta imagem, isto significa que há um elemento de força contrária perverso e mal, no caso, o capitalismo ou a própria essência humana. Pois, de uma forma ou de outra, a música esclarece que este elemento contrário é uma “cruz” a ser carregada imbricando assim bem e mal, numa relação ambígua e dialética.
Deixo com vocês a segunda estrofe – também muito interessante. Posso adiantar que fala sobre o esforço do homem em relacionar-se socialmente, sobre a influência da TV (das imagens construídas que ditam comportamentos de massa) e otras cositas más.

Aumentem o som!

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

De volta à civilização, um presente de final de ano
Eu gosto desta foto. De um lado, no primeiro plano, São Paulo. Do outro, aquela estradinha ao fundo, Minas Gerais.
Sempre gostei de limites: de tê-los e de superá-los. A geografia é um ótimo exercício e um dos quais eu mais me divirto. Conhecer rios de fronteira, estradas limítrofes, pontos zeros, divisas entre países, estados, municípios -- estes últimos nem tanto, dadas minhas andanças municipais rotineiras -- é programa de satisfação garantida. Numa abstração maior, ver o ponteiro maior do relógio arrastar-se ansiosamente em direção à zero hora do dia1 de janeiro também causa-me um certo êxtase inexplicável. Não que em algum lugar de minha mente tudo isso não passe de construção massificada para garantir esperança num mundo tão condenado como este, mas, como uma espécie de auto-alienação para auto-enganação, eu levanto meu copo de champagne e faço promessas de um ano melhor.
Bom, de lá para cá, daqui para lá, tanto faz. No limite, a graça é ir e vir sem saber exatamente onde estamos, mas com a precisão que a localização nos permite. Divirtam-se com o clima da foto que, por sinal, o dia estava maravilhoso. Um presentinho de final de ano para perdoar a ausência (sentida será?) e prometer voltar à produção bloguística assim que desfizer minhas malas. Quanto a mim, estou perdida em algum canto do mundo ou da foto, mais uma vez, tanto faz.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Ousadia

Num desses cantos obscuros da alma
ousei puxar a cordinha de um lampião
era você travestido de sim
dizendo que não

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

O poder da criação não é tão "ÃO" assim.

A minha angústia de escrever é escolher. Temos que escolher o cenário, o estilo, o tamanho dos parágrafos, a personalidade das personagens, delimitar o tema, as descrições, a relevância, as atitudes, os gestos, os movimentos, as metáforas, as figuras de linguagem, a vírgula, o ponto, o ponto e vírgula, exclamação, travessão, tristeza, alegria, morte, vida, nem sempre consciente. Tudo isto tem que se articular e isto angustia-me. Sempre pergunto a mim mesma: por que tal personagem será assim? Por que ela vai falar isto? Por que descrever tão minuciosamente esta porta, este objeto, esta paisagem é relevante? Por que descartei tal descrição? Por que eu não fiz referência, por exemplo, ao tipo de chão que tal personagem passa na cena mais importante do texto? Por que vou dar "voz" a alguém neste trecho? Por que sou onisciente (ou não)? E se eu quiser que em cima da mesa da protagonista tenha uma tesoura? Ou um lápis? Ou nada? Por que não a coadjuvante? Por que eu não quis escrever isto e quis escrever aquilo?
É por essas e outras que escrever, para mim, é uma aventura. É certo que isto causa um atraso imenso, nunca consegui escrever, por exemplo, uma história grande o suficiente ou como eu gostaria. Sempre esbarro nestas coisas, fico exercitando minha liberdade "criativa" (não no sentido de auto-elogio, mas do poder que todo ser humano tem de inventar uma história banal, ou seja, de fazer escolhas) tirando e pondo coisas, diálogos, interferindo em destinos, construindo mundos, reinos, cidades, mares, planetas, destruindo-os, reconstruindo-os. Crio personagens, decido idade, tamanho, cor dos olhos, comportamento, índole (ou falta de), formação. Ou seja, tudo. É mais que o poder divino praticamente, pois eu - como qualquer escritor - decido exatamente tudo. Bom, devo ter acabado de cometer uma heresia sem tamanho, a não ser que Deus tenha controle sobre o comportamento, formação, atitudes e pensamento de todos os seres daqui debaixo (até sobre os que são contra Ele), retiro o que disse.
Certa vez sentei para escrever uma história. O texto até que flui, as idéias até que vêm, mas eu não resisto em inserir ou retirar um objeto, em trocar uma fala, em desvirtuar completamente o destino já estabelecido, remexo, reviro, não gosto, tiro e, enfim, a não ser que tenha um objetivo pragmático (artigo de jornal, blog, trabalho de escola etc) posso sair de uma trama no século VII a.C a um romance policial no século XIX. Não que eu tenha capacidade para fazer nem uma coisa, nem outra, mas fico mastigando este monte de variáveis e isto me angustia profundamente. Por que falar de uma coisa, se eu posso falar outra?
Angustiante, mas desafiador. Há uma seqüência de cenas no filme "Buenos Aires 100Km" que me é particularmente perfeita: o menino-protagonista está a escrever um conto e o diretor mostra, na tela, a história que o menino conta enquanto este redige. Para cada decisão acerca do "romance" do menino, a história muda. Ele escreve (não me lembro exatamente): "Era uma vez um monstro que chegou à pé numa casa..." e aparece a cena do monstro. Ouve-se o barulho da borracha no caderno, o menino fala: "Não! Um monstro que chegou de bicicleta..." a cena volta e aparece a mesma coisa, mas o monstro de bicicleta. A seqüência é feita várias vezes, em vários trechos do conto e é divertida, um tanto engraçada (descrever perde a graça). Enfim, é isto que acontece. Assistam, recomendo.
Voltando, num segundo nível, quando a gente - no meu caso, muito sofridamente - consegue fazer a trama fluir, sem o desespero incontrolável de tomar o poder da caneta e mudar tudo, as personagens, a trama e tudo mais aquilo que você escolheu começam a tomar vida própria. Outra angústia. Por mais que você queira dar um destino nefasto ou cristão, algo controla os diálogos, as descrições etc etc... como se o seu subconsciente (ou alguma instância desconhecida) disesse: "sai daí, agora é a minha vez". Já matei personagem sem querer, já fiz a minha criação tomar atitudes inpensadas, incalculadas, já suicidei minha melhor personagem, já fiz o impiedoso ter perdão, o sertão virar mar e o mar virar sertão; já me prendi em quartos escuros, já atravessei o oceano, sem querer (por isto acho que cometi uma heresia lá em cima). E você lê, lê, lê, quer mudar e não muda. Que saco. E brigo: por que você fez isto, personagem estúpida? você é louca? Para onde você vai? Não fala isto! Não faça isto! Não faça aquilo! Pronto, já foi, já era. Eu não sou mais livre. O tal peso, as tais camadas, o tal desconhecido e todas estas variáveis, elas, sim, me escolheram.
O que eu faço? Se eu pudesse, como o Criador veio para a terra, enviar-me-ia para dentro de um monte de páginas, tornar-me-ia, então, personagem de mim mesma, e, portanto, tiraria da mão daquele cretino filho-da-mãe que eu criei a arma com a qual ele ia se matar.
Como não dá, destruo e queimo tudo, ou melhor, deleto e arranco até da lixeira. Nem como lixo servem minhas histórias.
(Não mesmo: sem auto-piedade, falsa modéstia, sem estas coisas de joguinhos hipócritas).