sábado, 25 de outubro de 2008

Quero teu corpo, teu rosto, teu sonho
Dengoso e gostoso como um amor
Eu sei
Sinuoso
E rolar neste som virtuoso
Enquanto você diz, manhoso:
Simpática.

domingo, 12 de outubro de 2008

Sobre o tempo

Os homens trocam as famílias
As filhas, filhas de suas filhas
E tudo aquilo que não podem entender
Os homens criam os seus filhos
Verdadeiros ou adotivos
Criam coisas que não deviam conceber

O tempo passa e nem tudo fica
A obra inteira de uma vida
O que se move e
O que nunca vai se mover

O passado está escrito
Nas colunas de um edifício
Ou na geleira
Onde um mamute foi morrer

O tempo engana aqueles que pensam
Que sabem demais que juram que pensam
Existem também aqueles que juram
Sem saber

(Nenhum de nós)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Reprodução
A hera nasce, cresce, se reproduz e morre
A era nasce, cresce, morre e se reproduz

sábado, 29 de setembro de 2007

Não quero ser diferente
Quero ser igual
igual a todas as coisas diferentes que te fazem feliz

domingo, 16 de setembro de 2007

"Talvez nos encontremos de novo, mas
Ali onde você me deixou
Não me achará novamente"

Bertold Brecht

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Começou pelo fim
retardou no meio
acabou na partida
das partes envolvidas

envolveu o centeio
a uva passa e a comida
de algumas idéias travestidas

Findou-se no ar da expectativa
esmoreceu pelo ralo dos olhos
e ressuscitou ao segundo dia
permitindo a veia e a saliva
das palavras não resolvidas
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A mar

melancolias de marfim
em estruturas de mármore
definindo martelos
em ferida marcada

não ouse amar,
ele disse

Sem amar,
eu respondi
Não tenho fim,
acumulo amores
para não tê-los
Sou deserto em cada
desejo teu.

O mar deveria ser feminino.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O. Tetiro e M. Teponho

Te tiro dos pensamentos você volta
Te tiro do coração você não sai
Te tiro da realidade você fica
Te tiro quociente você divide
Te tiro da inércia você rotina
Te levo a sério você brinca

Te ponho potencial você cinética
Te ponho na espera você se atrasa
Te ponho consciente você sub
Trai
Te ponho mente você verbo
Te ponho ão você inho
Te conto piada e você hipo

Como isto?

Do sacro tiro
Do ufano ponho
Tiro ufano ao longe
Sacro ponho laico
Erra quem diz aramaico
Passa longe quem manda flores
Chega perto quem espanta amores
Um grito surdo da dialética
Quebra o dedo virado para o céu
E amputa o pé preso à terra
Entre as mutilações
Vos apresento:
O ponto Tetiro e M ponto Teponho

sábado, 28 de julho de 2007

Apenas um registro

Hoje, fui parar, muito por acaso, em uma cerimônia de casamento espírita.

Participei, ou melhor, assisti de camarote o dia mais feliz da vida de alguém. Não deixei de provar, é lógico, do meu próprio veneno ao constatar o sorriso largo da mulher, o brilho nos olhos, a confiança de uma vida inteira juntos... e o olhar preocupado do homem, uma ânsia pelo fim da cerimônia e, quase podendo ler sua mente, “agora as contas sou eu quem pago”.
Pessimismos à parte, concentrei-me na mulher e prestei atenção a cada passo, a cada hesitação, em tudo que eu pudesse recolher de informações para guardar no pacote: “O dia mais feliz da vida de um ser humano é assim:...”.
Em meio a estas divagações, recolhi-me ao meu subconsciente para encontrar os dias mais felizes da minha vida. Sem papo enojado de auto-ajuda; e felicidade é o tema mais explorado e inacabado das mesas de bar. Não perderei meu tempo dizendo que ela não existe, não é? Não precisa.
De olho na noiva, fui buscar minhas reações e onde eu estava quando...

Dei meu primeiro beijo. Rá! Graças à ajuda da Carolina, uma amiga: ela olhou para mim e disse: “Ana Clara, seus olhos estão brilhando de felicidade!”. Sim, eu soube que aquele seria um dia marcante, mas só – e somente só - porque alguém me contou.

O filme da vida continua rolando... amizades, conquistas, momentos como... este? Não. Este! Também não. Quem sabe aquele? Huumm... pensando bem, não. E aquele outro? Será... acho que não.
Não encontrei. Erra quem ousa pensar que eu sou uma pobre garota infeliz, mas nada se comparava às reações, aos anseios, às expectativas que a noiva estampava no rosto.

Parei, de repente, quando soube que passei no vestibular. Lembro-me que estava em um churrasco, minha mãe ligou, deu a notícia e eu saí gritando, pulando, abraçando a todos, eu não conseguia conter um sorriso de orelha a orelha e falava sem parar da minha alegria.
Esta reação, definitivamente, não tinha semelhança alguma com aquela mulher reservada e contida num vestido branco, mostrando os dentes e olhos brilhantes.
Para manter a relação um pouco mais equivalente, corri rapidamente o filme com o seletor de imagens ligado no item relacionamentos. 48 horas, cinco meses e 30 dias. Diluído por este período estão os dias felizes da minha vida ao lado de alguém. Já os dez anos restantes....

Recolhi as pétalas do chão, guardei-as em um envelope e escrevi:

“Registro que hoje, dia 28 de julho de 2007, alguém estava realmente feliz. Muito feliz.”

sexta-feira, 27 de julho de 2007

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Mitomorfoseando:
mito
mitose
metáfora
metamorfose

Ainda no casulo.
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quinta-feira, 14 de junho de 2007

Mitófora

O tempo desgasta as metáforas e fortalece os mitos.
Ainda luto pelas metáforas
Pela descrença nos mitos
Sem matar o ser humano
Sem buscar o tempo perdido

Impossível
Improvável

E eu digo
Imperceptível
Incalculável

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Uma criança me disse
com voz doce e olhar pueril
que o amor saía da saia
Perguntei:
Por quê?
É quando as pernas se encontram.

sábado, 12 de maio de 2007

Caju

O pacote de momentos destinado à ininterrupta monotonia da rotina pode ser dissolvido e ingerido num gole de suco de caju. Um líquido amarelo, meio cor de burro quando empaca (se fugisse ainda teria algum quê de dinamismo), gosto de água com açúcar e duas medidas de engodo. Um secreto fingir que tomamos algo prazeroso e no fundo só água, açúcar, rotina e caju. A bílis de minha raiva, outrora um ode à fuga da mesmice, torna-se aquele amarelento embaçado, fruto do tempo passado que acalma os ânimos e nos fazem voltar ao... mesmo. Caju.
Mesmo, mesmo, sempre o mesmo. Não! Basta!
Eu quero beber o veneno de minha raiva; o licor da minha sedução; o ácido dos meus pensamentos; a cicuta do meu ego; a água dos meus prazeres. O leite do teu deleite; o vinho de teus olhos; o soro dos teus defeitos; e até o óleo de fígado de bacalhau da tua forma de amar, mas não aceito o mesmo. Esta mistura fajuta de prazeres comprados com dissolução certa e modo de preparo; servida em copos infinitamente iguais para pessoas esquizofrenicamente iguais num comportamento enojadamente normal.
Façamos a nossa festa! Destruamos os copos de mesmice e toda a sala de jantar!

sábado, 28 de abril de 2007

Eram em três. Enquanto Vérges procurava incessantemente dar conta de duas mulheres afoitas por sua atenção, uma instância superior, onisciente, onipresente observava milimetricamente cada passo daquela conversa: eu, a narradora. Mas, antes que me julguem prepotente (nós, os narradores, sempre o somos, porém dificilmente explicitamos. Afinal, atualmente, não é muito vendável não fazer com que o leitor acredite que ele é o máximo), preciso avisá-los de que eu sou uma das mulheres da conversa. Compartilho daquele momento, mas tenho poderes – que a ficção me permite adquirir – de, a cada quinze minutos, sair de mim mesma e situar-me num ponto superior, acima daquelas três cabeças banais jogando conversa fora. O ângulo é exatamente o centro da mesa, superior aos mortais, como se simplesmente eu tivesse amarrado minhas ancas nas vigas do telhado e observasse tudo como um anjo pelado tocando trombetas (apesar de procurar manter o silêncio durante a ascensão).

Vérges dirigia todo o assunto da conversa com uma destreza artesã. Cada movimento de sua mão era capaz de provocar uma mudança brusca nos temas tratados, uma parada repentina ou um silêncio absoluto para dar espaço às suas colocações. Tinha o controle dos olhos e ouvidos das mulheres em cada gesto de seus dedos, em cada indicador apontado, em cada afago no cabelo. Frolaine era uma; e eu, a outra. Frolaine contestava todas as observações de Vérges, mas era logo vencida pela levantadinha do óculos e dois argumentos. Sem base, não havia discussão. Quanto a mim, só posso dizer durante a ascensão; afinal, qualquer colocação agora, soaria como um falsete tanto em relação a mim, quanto à Frolaine. Posso dizer que eu admirava cada gesto daquele rapaz que prendia a minha atenção, não mais do que isto.

Vérges, Frolaine e eu tínhamos muito em comum. Era a isto que se devia aquele encontro. Frolaine sempre acreditou que conquistaria Vérges com suas implicâncias, apostara toda a adolescência em Vérges, mas ele sempre a tratara como uma irmã e, ficar com ela, segundo sua própria ironia e sarcasmo, era incesto. Eu desprezei, durante a mesma adolescência esperançosa de Frolaine, o próprio Vérges, enquanto este rapaz, hoje preferido entre as mulheres, acusa-me de tê-lo ensinado a crueldade com as mademoiselles.

sexta-feira, 27 de abril de 2007


E viro caixa de lápis de cor
não para desenhos e humores de mimeógrafo
mas para palavras e imagens coloridas
além do teu lápis e humor cinzas

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Quando o mundo todo explicado perde a graça
Vende-se o mistério

À parte do esnobismo sociológico, gostaria de fazer constar, a partir das minhas humildes observações, algumas, como diria, curiosidades que, quase sempre, me assolam a ponto de torná-las mais um fragmento do ás (neste caso, o assunto está mais para o “mentira”). Como é sabido, não assisto televisão. Não por exibicionismo intelectual, não a considero a disseminadora indiscriminada da imagem da besta, nem a responsável por todas as mazelas culturais/educacionais do país, tampouco a (única) alienadora malvada desta pobre sociedade vítima de todos as mídias, mas por uma fobia adquirida a ponto de não agüentar ficar mais de cinco minutos sentada no sofá. A não ser por filme ou jogo de futebol, nada mais me apraz nesta mídia e todo o resto irrita-me. Mesmo assim, não pude deixar de constatar, por este e outros meios, uma mania nacional – e desconfio que até internacional – pelos casos de mistério. Séries de investigação criminal, papiros perdidos, talismãs roubados, códigos indecifráveis, fenômenos extraterrenos, enigmas religiosos e todo o pacote de roteiros que incluam algum elemento aparentemente inexplicável vêm se tornando verdadeiros best-sellers. Não é preciso citar “Código Da Vinci”, não é? Ok, já foi. Citado está. É certo que sempre houve um interesse expressivo também em Sherlock Holmes, Agatha Christie e companhia, no entanto, muitas vezes, reservado ao seu grupo exclusivo de apreciadores. Atualmente, como de praxe, a massa pasteurizada de produtos com este enfoque está com maior espaço, eu diria, todos os espaços das prateleiras. Uma das explicações para tal fenômeno, creio, não está muito longe.

A indústria cultural, sabe-se, apenas um mecanismo de toda esta engrenagem para fazer-nos crer que o mundo é maravilhoso e se você não concorda é um aborígene, procura oferecer – e consegue – todas as explicações sobre o mundo. Problemas no amor? Tome uma coca, compre um livro de auto-ajuda ou se acabe no shopping. Com dinheiro? “Como casais enriquecem juntos”. Felicidade? Veja um filme bem água-com-açúcar e ele te dirá. Relação humana? Psiquiatra (e um bem bonitão, igual ao do cinema). Problema social? Doação para ONG. Poderia discorrer aqui horas a fio os mecanismos de cerceamento das questões relevantes e, por ora, desconfortáveis que a indústria cultural, de alguma forma, tenta resolver, ou melhor, resolve aparentemente. Porém, por contradições próprias do sistema, tudo está explicado e, mesmo assim, as pessoas estão “descontentes”. Todos queriam explicação, agora a têm (os que se deixam crer) e, catso, simplesmente a-ca-bou a gra-ça. Como resolver isto, afinal, parar de consumir não podemos? Simples, tchan-ram, os enlatados que falei. Transporta-se a ânsia que mesmo o mais selvagem dos homens (se homem o for) tem, um dia, pelos “mistérios” entre o céu e a terra para as telas do cinema/televisão/computador. As “dúvidas” tornam-se compráveis, portanto controláveis e inofensivas. Não é um fenômeno nada novo, não é a primeira nem a última vez que acontece, porém, mesmo com todos os esforços de homogeneização e pasteurização do pensamento e dos homens, a indústria cultural ainda rebola para que o sistema supere suas próprias contradições. Tá, não foi um rebolado que exigiu muito esforço, mas, como disse, é uma constatação enquanto a gente vê a roda viva girar.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

O amor que trago: dores profundas enroladas num papel bem piegas de pouco caso.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Apresenteando
23 anos.

domingo, 15 de abril de 2007

Jardins suspensos

Para descrever o inferno usamos palavras feias. Pelo menos, é assim que muita gente faz. Reúne um grupinho considerável de léxicos horrendos e pavorosos e pronto. Diabo, demônio, capeta, cão, capiroto, coisa-ruim, cramulhão, dor, tortura, desgraça, humilhação, ferra brás, pé de bode, satanás, sete peles, tranca rua, tinhoso, sofrimento, pacto, morte, angústia, desespero, pavor, medo, pânico, orgulho, luxúria, gula, tentação, cobiça, inveja, desprezo, crueldade, vileza, gordura quente no olho, pimenta em ferida de leproso, faca nas entranhas e o inferno está montado. Acrescente-se a isso, é claro, já que é para ser infernal, algum medo ou receio da pessoa a quem queremos impressionar elevado à enésima potência. A partir deste quadro básico, com poucas variações, acreditamos que todas as coisas horríveis do mundo estão descritas e resolvidas. Não se enganem, meus caros. O inferno mesmo está presente até nas paisagens mais belas com borboletas voando, jardim planejado, céu limpo e vista para o mar. No arco-íris que se abre, na flor que brota e na graminha aparada. Basta olhar para o lado, quando seus olhos saem do outdoor de propaganda do novo condomínio.
21 de março
Havana Cuba
1º dia

Várias cenas tentei registrar em minha memória para passá-la aqui, mas foram tantas que guardei que uma sobrepõe-se à outra e não consigo mais marcar o exato ponto em que elas chamaram-me a atenção. No máximo, posso dizer que agora tenho vários pontos de atração (das muitas coisas que captei) coberto por um manto difuso do excesso de novidade. Este fenômeno, este sim, sintetiza a enxurrada de momentos experimentados até agora: a vista aérea noturna de Cuba.
Assim que soube, pelo televisor do avião, estar sobrevoando o solo cubano, agarrei-me à janela e lá fiquei. A lua, quando saí de Panamá, estava branca e parecia escancarar um sorriso largo de comprimento e curto de altura. À medida que nos aproximávamos de Cuba, a lua tornando-se-ia amarelada e cada vez mais desavergonhada.
Lembro-me de ter olhado para ela logo após o aviso de cerrar os cintos para o pouso: era como se os astros sorrisem para mim. Ainda tenho dúvida do caráter deles, mas, bem ou mal, era uma saudação de boas-vindas.
A partir do aviso do piloto, concentrei-me em observar o solo. Nada de grandes concentrações de luz, prédios altos, muitos espaços, cidades planejadas, nada. Como se jogassem um manto preto sobre uma cidade cheia de luz e apenas alguns pontos se destacassem sobre ele. Assim parecia o trecho entre o oeste e o leste da ilha. Por meio de um foco iluminado, pude notar que havia, abaixo de mim, uma longa estrada, mas não o sabia até então. Em toda a extensão da Rodovia, só havia um feixe de luz. Por um egoísmo qualquer (visto que isto significa falta de segurança e outras muitas coisas) considerei esta cena uma das mais belas que já vi. Concentrações pequenas de luz, muito espaçadas aparentemente sem comunicação alguma. Em anda parecido com o céu de SP, que é similar ao do Panamá e outros (nas mesmas condições).
Muy belo.
Cheguei à noite, 22:18hs, horário local. Demorei a encontrar minhas maletas e, quando saí, depois de muitas perguntas no portão de imigração, a família já me esperava.
Entrei em um carro azul, desses que aparece em todo filme que se trata de Cuba, un carrito muy bonito. Ah, não posso deixar de registrar um certo desconforto em todos os adjetivos (por mais agradáveis que o sejam) que remeto à qualquer coisa daqui.
Digo que acho os prédios, os carros, a tranquilidade e tudo o mais e já me considero uma "egoísta" de antemão. São casas velhas, sem descarga, sem infra-estrutura, mas eu as acho belíssimas. As ruas parecem que pararam no tempo, construções magníficas "preservadas" (sem o sentido técnico do termo). A casa onde estou é pequeniníssima, mas muito agradável. Tem corredores obscuros, janelas antigas, prédios que brasileiros desavisados chamariam de cortiço, mas tudo muito limpo (mesmo que não o pareça).
Não consigo entender uma palavra do que uns dizem ao passo que, com outros, entendo tudo e converso bastante. Estou muito sem graça... algumas pessoas não "gostam" (como se fosse uma questão de "gostar" ou "não", hunf) do Fidel.
Constranjo-me muitas vezes de dizer que o "atraso" deles... o tempo parado por aqui... é uma das coisas mais ricas que já vi. Mas assim é, que o saibam... e tudo se revira dentro de mim... mais um daqueles períodos de reviravolta total entre certo e errado, belo e feio e justo e injusto.

sábado, 7 de abril de 2007

Faz o seguinte: quando chegar em casa, derrube todos os meus livros, esparrame-se pela estante e diga que não sai de lá de jeito nenhum. Mas tem que ser firme e ter argumentos suficientes para eu não catar nenhuma livreta de poeta vagabundo, tacar na tua cabeça e te mandar sair dali. Tem que me oferecer cores, palavras, sabores, mundos, imundos e até cheiro de papel velho, não ligo. Quanto à interpretação, deixe por minha conta. Se você me convencer, expando o céu da minha semântica e te encontro até em notações fonéticas de dicionário chinês com explicação em russo. Faço de tuas estrelas minhas palavras, da tua existência meu pensamento, da tua caneta meu escudo, do teu corpo nosso sexo e das vírgulas, cúmplice. Esparramarei meu corpo sobre todas as folhas de papel branco e não organizarei as paixões em ordem alfabética, elas não terão nome. Colocarei teu lápis entre os seios e a tua frase predileta no umbigo. Terei olhos de Capitu, corpo de Iracema, rosto de Lolita e sexo de Tieta. Depois saio para buscar aquele peso de pedra que segura os livros para não caírem.