quinta-feira, 8 de junho de 2006

“En el museo de mi escuela, hay uma de las cosas más raras que vi em mi vida: un cabrito con dos cabezas. Pero lo más raro de todo, todo, todo, todo lo que vi es un compañerito que tiene una mamá y nunca le habla. Él sale, le pasa la valija a ella, y nada más. Yo, si tendría una mamá, la usaria mucho más. Me la passaría hablándole. No sé. Hay gente que tiene todo y no lo disfruta, como ese tipo que a veces espio en la esquina del bar, que toma café y lee el diario, y nada más. Hay gente que parece como si no viviera, o no le da uso a la vida”

“No museu de minha escola, há uma das coisas mais estranhas que já vi na minha vida: um cabrito com duas cabeças. Mas o mais estranho de tudo, tudo, tudo, tudo que já vi é um coleguinha que tem uma mamãe e nunca lhe fala. Ele sai, entrega-lhe a pasta, e pronto. Eu, se tivesse uma mamãe, a usaria muito mais. Ficaria o tempo todo falando-lhe. Não sei. Há pessoas que têm tudo e não aproveitam, como esse sujeito que vejo, às vezes, na esquina do bar, que toma café e lê o jornal, e só. Há pessoas que parece que não vivem, ou que a vida não lhes é útil”.

Valentin, do filme homônimo.


PS: Como vou viajar amanhã para São Sebastião da Grama (onde raios fica isto?! Também não sei, vou visitar um primo... hehehehe... e depois vou para minha terra salve, salve) deixei estes dois posts para vocês pensarem e se divertirem um pouco.
Beijos a todos!!
Mariane: apaixonada de Valère; Dorine: dama de companhia de Mariane; Valère: apaixonado de Mariane;
[Ao saber que a mão de Mariane está prometida a Tartufo, Valère encontra-se com Mariane e Dorine na sala]

Valère: Mariane, acabam de me dar uma notícia que eu não sabia e que é, sem dúvida, muito interessante.
Mariane: Qual?
Valère: Que você vai desposar Tartufo
Mariane: É certo que meu pai pôs esse plano na cabeça
Valère: Seu pai, Mariane...
Mariane: Mudou de opinião: ele mesmo acaba de mo dizer
Valère: Como? É sério?
Mariane: Sim, é sério. Declarou-se abertamente por esse casamento.
Valère: E qual o partido que tomará diante disso, senhora?
Mariane: Não sei.
Valère: A resposta é honesta. Não sabe?
Mariane: Não
Valère: Não?
Mariane: Que é que me aconselha a fazer?
Valère: Eu lhe aconselho a aceitar esse esposo.
Mariane: Você me aconselha isso?
Valère: Sim
Mariane: De verdade?
Valère: Sem dúvida: a escolha é gloriosa e vale a pena que seja aceita.
Mariane: Pois bem, senhor! Aceito seu conselho.
Valère: Não lhe será muito difícil segui-lo, ao que parece.
Mariane: Não mais do que foi em dá-lo, acho.
Valère: Eu o dei tão-somente para lhe ser agradável, senhora.
Mariane: E eu o seguirei para agradá-lo
Dorine: Vamos ver o que sairá disso
Valère: Então, é assim que se ama? E era para me enganar quando...
Mariane: Não falemos disso, por favor. Você me disse com toda franqueza que devo aceitar aquele que me impingem como esposo: e eu declaro que pretendo fazê-lo, pois é você que me dá conselho tão salutar.
Valère: Não venha desculpar-se com as minhas intenções. Você já havia tomado sua resolução e agora lança mão de um pretexto frívolo que a justifique por faltar à palavra.
Mariane: É verdade, muito bem dito.
Valère: Sem dúvida, e o seu coração nunca nutriu por mim verdadeiro amor.
Mariane: Ai de mim! É-lhe permitido ter tal pensamento.
Valère: Sim, sim, é permitido; mas minha alma ofendida talvez se lhe antecipe em projeto semelhante e sei muito bem onde levar meus sentimentos e minha mão.
Mariane: Ah! Não duvido, e os ardores que o mérito aviva...
Valère: Meu Deus, deixemos de lado o mérito: tenho muito pouco sem dúvida, a julgar pelo caso que faz dele. Mas espero que outra terá por mim muitas atenções e bem sei quem consentirá, de bom grado, em repara minha perda.
Mariane: Não é grande a perda; e você se conformará facilmente com a troca.
Valère: Farei o possível, e pode crê-lo. Coração que nos esquece nos lança um desafio e é preciso, para esquecê-lo, usar de todos os meios: se não se conseguir, deve-se pelo menos fingir. E não se perdoa nunca a covardia de demonstrar amor a quem nos abandona.
Mariane: Sem dúvida, tal sentimento é nobre e elevado.
Valère: Muito bem; e todos devem aprová-lo. Por acaso pretenderia você que eu conservasse eternamente na alma todo meu amor, vendo-a com meus próprios olhos passar para outros braços, sem dar a outra o coração que rejeita?
Mariane: Ao contrário; quanto a mim, é isso mesmo o que desejo. Gostaria que já fosse realidade.
Valère: Deseja mesmo?
Mariane: Sim
Valère: Basta de insultos, senhora, e desta maneira vou satisfazê-la. (Dá um passo para ir embora mas volta atrás)
Mariane: Muito bem.
Valère: Lembre-se ao menos que é a senhora mesma quem me obriga a dar esse passo extremo.
Mariane: Isso mesmo.
Valère: E que o desígnio que minha alma concebe segue exatamente seu exemplo.
Mariane: Meu exemplo, está certo.
Valère: Basta: no momento preciso, você vai ser servida.
Mariane: Tanto melhor.
Valère: Está vendo, é para toda vida.
Mariane: Até que enfim.
Valère: Ah! (Vai-se e, quando chega à porta, volta-se)
Mariane: Como?
Valère: Não me chamou?
Mariane: Eu? Está sonhando.
Valère: Muito bem! Continuo meu caminho. Adeus, senhora.
Mariane: Adeus, senhor.
Dorine: Quanto a mim, acho que vocês estão perdendo a cabeça com essa extravagância. E eu os deixei discutir até agora só para ver até onde podiam chegar. Ei! Senhor Valère ( Ela vai detê-lo pelo braço, mas ele fingi resistir)
Valère: Que é que você está querendo, Dorine?
Dorine: Venha cá.
Valère: Não, não, o despeito me domina. Não me faça voltar atrás naquilo que ela desejou.
Dorine: Pare.
Valère: Não está vendo? É caso resolvido.
Dorine: Ah!
Mariane: Ele não suporta minha presença e seria muito melhor que eu fosse embora.
Dorine (deixando Valère e correndo para Mariane): E você, para onde vai?
Mariane: Largue-me!
Dorine: É preciso voltar.
Mariane: Não, não, Dorine: é inútil querer me deter.
Valère: Vejo que minha presença é um suplício para ela e, sem dúvida, será muito melhor que eu vá embora.
Dorine (deixando Mariane e correndo para Valère): Outra vez? Que o diabo o carregue se deixar você ir embora! Acabem com essa brincadeira e venham cá os dois. (puxa-os, um para o outro)
Valère: Mas quais são tuas intenções?
Mariane: Que queres fazer?
Dorine: Que façam as pazes e saiam desse embaraço. Você está louco para brigar desta maneira?
Valère: Você não ouviu de que maneira ela falou comigo?
Mariane: Você está louca, ficando zangada assim? Não acompanhaste tudo? E viste como ele me tratou?
Dorine: Tolice de ambos os lados. Ela não quer outra coisa a não ser conservar-se fiel a você, pode estar certo. Você é a única para ele: não alimenta outro desejo senão o de ser seu esposo. Garanto-o com a minha vida.
Mariane: Por que então dar-me tal conselho?
Valère: Por que me interrogar sobre assunto semelhante?
Dorine: Vocês dois estão malucos. Vamos, a mão de um e de outro. Vamos, os dois.
Valère (dando a mão a Dorine): Para que dar a mão?
Dorine: Ah! Agora a sua.
Mariane (dando também a mão): Para que tudo isso?
Dorine: Meu Deus! Depressa, aproximem-se. Vocês gostam um do outro mais do que imaginam.
Valère: Mas não faça tudo isso com dificuldade e olhe pelo menos para mim sem ódio. (Mariane volta os olhos para Valère e esboça um sorriso)
Dorine: Para dizer-lhes a verdade, os apaixonados são mesmo malucos!

“Tartufo”, de Molière.

terça-feira, 6 de junho de 2006

Veja como eu sei.

Alguém aí com certeza já deve ter esbarrado pelo comercial da enciclopédia Veja que, se não me engano, vem junto com a compra da Folha ou do Estado.
Trata-se de uma criança que, a qualquer fala dos pais, responde imediatamente com as fórmulinhas prontas de almanaque. Num primeiro momento, a propaganda é até simpática e engraçadinha. Despertaria o orgulho de qualquer pai sobre seu filho. Juro, não fiz cara feia. Mas depois me ocorreu outra coisa.
Esta atitude de rotular tudo sob a ótica estrita do que alguma coisa representa superficialmente trouxe-me sérias preocupações. Então é assim que as “nossas crianças” serão, pretensamente, “educadas”? Diante de um determinado assunto, procura-se o respectivo tópico e despeja-se sobre o seu interlocutor. Relativizar as posições? Dar-lhes a devida referência histórica? Atribuir-lhes limites? Contextualizar? Analisar os próprios tópicos em questão? Concretizar? Longe disto! Isto me lembrou várias discussões que tive (e, freqüentemente, tenho) com o pai de uma amiga minha. Conservador, aristocrata, refém de cartão de crédito, shoppings, carros, celulares, marcas. Entre nós, dissidências políticas e sociais, mais nada. Ele tinha a mesma atitude da criança – claro, não do ponto de vista da infantilidade, mas da acepção e organização dos argumentos “rotulados”. Sua maior justificativa? “Eu li na Veja”.
De volta ao comercial, passei a ter calafrios sobre o tipo de pessoa que estes almanaques (de fato: como a propaganda coloca) poderiam formar. Não vou usar minhas pedras com a revista, meus amigos já o fazem por mim, e também não é o caso. Uma voz ecoou e despertou-me rapidamente para escrever este texto: Quem te ensinou isto? “Eu aprendi na Veja”.
Disaster.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Não tenho recordação do último filme que me fez chorar tanto como hoje. Nenhum amor meloso, nenhuma morte trágica, nenhum desastre mundial, nenhuma cena de guerra, nenhum filho perdido, nenhuma miséria, nenhum trauma do passado, nenhum E.T de cara feia, nenhuma Auschwitz; nem navio afundando, helicóptero caindo, bomba explodindo, prédio despencando, carro atropelando, meteoro desabando, vírus se alastrando; nada de efeitos high-tech, personagens virtuais, homens voadores, mocinhas chorosas, bandidos malvados, vovózinhas bondosas, crianças-prodígio, femmes fatales e galãs charmosos; nenhuma descoberta mirabolante, nenhum monstro invencível, nenhum código indecifrável, nenhum tesouro a ser procurado, nenhum duelo fantástico, nenhum segredo revelado, nenhum objeto roubado; não tem polícia, político, FBI, Interpol, SWAT, exército, presidente dos EUA, terrorista, czar, profeta, imperador, rei, ladrão, pirata, cientista, demônio, anjo, cavaleiro, traidor; nem príncipe, nem princesa; nem duque, nem duquesa; nem barão, nem baronesa; nem camponês, nem camponesa; nem tirolês, nem tirolesa; tampouco “tico-tico lá”, dança, bunda, peito, coxa, boca, sexo, drogas e rock’n roll.
Considerando grande parte dos filmes atuais, parece que não sobrou nada, não é mesmo? Porém sobrou muita coisa – bem melhor, por sinal – e eu chorei, debulhei-me em lágrimas... se assistir de novo, volto a chorar. Como disse, não há nada, aparentemente, de super-mega-ultra tocante – em termos hollywoodianos. Um filme singelo como “Cinema Paradiso” foi até o fundo de algum lugar em mon âme que eu não sei explicar. Pode até parecer a coisa mais idiota deste mundo, mas eu me emocionei. E, para os meus caros colegas jornalistas, não sei quando, nem como, nem por quê, nem o quê, nem onde este filme exatamente me atingiu para ativar tão intensamente minhas glândulas lacrimais. Para não decepcioná-los (e a mim também), a trilha sonora é um bom caminho – depois do filme, chorei até ouvindo o “menu”.

PS1: Aluguei dois dvds para o fim de semana. Deixei o que eu julgava mais “emocionante” para depois e assisti o Paradiso durante o dia. Resultado: meu domingo inteiro foi bem aquático.

PS2: Sensibilizar-me em filme, sinceramente, é uma atitude na-da comum.

sábado, 3 de junho de 2006

-Papai, o que é Páscoa?
-Ora, Páscoa é... Bem... é uma festa religiosa!
-Igual ao Natal?
-É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e naPáscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressureição.
-Ressurreição?
-É, ressurreição. Marta , vem cá !
-Sim?
-Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meuJornal.
-Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi oQue aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. EleRessuscitou e subiu aos céus. Entendeu ?
-Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?
-O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas ! Coelho! JesusCristo é o Papai do Céu ! Nem parece que esse menino foi batizado!Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa. Pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã ! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola ? DeusMe perdoe ! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
-Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus ?
-É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso noCatecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
-O Espírito Santo também é Deus?
-É sim.
-E Minas Gerais?
-Sacrilégio !!!
-É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?
-Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, éO Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe
Entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professoraExplica tudinho!
-Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa ?
-Eu sei lá ! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés dePresente ele traz ovinhos.
-Coelho bota ovo ?
-Chega ! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais !
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa ?
-Era... Era melhor,sim... Ou então urubu.
-Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né ?
-Que dia ele morreu ?
-Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
-Que dia e que mês?
-(???) Sabe que eu nunca pensei nisso ? Eu só aprendi que ele morreu Na Sexta-feira Santa e ressucitou três dias depois, no Sábado deAleluia.
-Um dia depois!
-Não três dias depois.
-Então morreu na Quarta-feira.
-Não, morreu na Sexta-feira Santa... Ou terá sido na Quarta-feira deCinzas ? Ah, garoto, vê se não me confunde ! Morreu na Sexta mesmo eRessuscitou no sábado, três dias depois! Como ? Pergunte à sua Professora de catecismo!
-Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua ?
-É que hoje é Sabado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação doJudas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
-O judas traiu Jesus no Sábado ?
-Claro que não ! Se Jesus morreu na Sexta !!!
-Então por que eles não malham o Judas no dia certo ?
-Ui...
-Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
-Cristo. Jesus Cristo.
-Só ?
-Que eu saiba sim, por quê?
-Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus CristoCoelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, nãoAcha ?
-Ai coitada!
-Coitada de quem?
-Da sua professora de catecismo!

Recebi por email.
Eu fiz catecismo e mesmo assim não explicaram nada. Aliás, catecismo te ajuda a não ter que explicar nada, só concordar. Coisa de Jesuíta...
Melhor continuar por outras vias mesmo...
Duas coisas:

1- Numa pergunta, meu professor responde: "Você é irritantemente jovem!".
Deu-me uma vontade louca de responder: "Você é tediosamente velho!".
Não falei, só refiz calmamente a minha pergunta.
Devemos respeitá-los... nem irritar, nem entendiar: se acalmar "um, dois, três, quatro..."

2- Tum, tum, tum, ocupado. Aehbilenz, zilbhenae, ealbizenh, hezniblea. Ana Clara está longe.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Pior do que aluno puxa-saco de professor, é professor puxa-saco de aluno. E infinitamente pior do que ambos, é ser o aluno de quem o professor puxa o saco.
>:\\Revoltante.
O trambique desce redondo
Clóvis Rossi

SÃO PAULO - Suspeito de que pouca gente tenha prestado atenção ao retrato acabado do brasileiro que está no ar nos comerciais, embutido em anúncio da cerveja Skol. Para quem não viu ou não prestou atenção, um resumo: um torcedor brasileiro vê a Argentina jogar contra o Brasil e, latinha de cerveja na mão, diz que, com a Skol, tudo desce redondo, inclusive o jogo. A partir daí, as traves ficam redondas e móveis. Sempre que a Argentina está para marcar um gol, elas saem da posição regulamentar, e o gol é perdido. É a sacramentação pública do trambique, da falta de respeito às regras, regrinhas simples, básicas. Quando se festeja a quebra de uma regra, fica implícito que todas podem ser quebradas -e usualmente o são no Brasil. É a apologia do crime, pequeno crime, mas crime, como os brasileiros praticamos diariamente ao invadir a faixa do pedestre, ao ultrapassar pela direita, ao estacionar em fila dupla, ao subornar o guarda para evitar a multa. Fico na lista de pequenos crimes para não aporrinhar o leitor com os grandes crimes que ele lê todo santo dia, não só nas páginas policiais mas também (ou principalmente) nas páginas políticas. Note o leitor que estamos falando de futebol, uma das raríssimas atividades em que o brasileiro é universalmente competitivo. Não precisa de traves móveis para ganhar da Argentina ou de quem quer que seja. Mas o espírito do malandro cretino é esse mesmo: melhor sem esforço, com ajuda da maracutaia, do que empenhar-se para fazer valer o talento natural. Note também que estamos falando de publicidade, outro ramo em que o brasileiro é com folga dos melhores do mundo. Se os melhores louvam o trambique, os medianos e os piores farão o quê? Aderir ao PCC, lógico.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

No caminho do meu prédio até o banco tem uma casa antiga. Não lembro como era antes, mas percebi que ela foi pintada. Quando olhei, tive a impressão que simplesmente jogaram um balde de tinta. Ela tem um monte de ornamentos, detalhezinhos, viradinhas, "frufruzinhos" que, simplesmente, "plóft" tomaram tudo a mesma cor: um coral-laranja-com-cara-de-rosa.
Como se tratava de um consultório num bairro de classe média alta da cidade, a tinta parecia daquelas super-ultra-mega-hiper-high-plus-master-advanced que, se deixar, quando tocar na parede, ela fala "bom dia" em cinco idiomas. No mais, não respeitaram nada.
Fui ao banco. Voltei pela mesma rua.
O choque já não era tão grande. E já não estava tão esquisita como eu achei da primeira vez. O que era "novo" era branco: o portão e as janelas (menos os batentes, só as janelas mesmo). Tinha lá um detalhezinho, novo também, de ardósia na entrada; e grama na frente. Insosso, sem graça, muito coral-laranja-com-cara-de-rosa e os ornamentos pareciam que estavam sobrando, não enfeitando, digo, virou uma marca do passado que a tinta high-tech escorrida não dava a mínima. Mesmo assim já não era tão incômodo e até passei a achá-la "bonitinha". Disse pra mim mesma: "acho que não entendo nada de pintura e decoração".

terça-feira, 30 de maio de 2006

Disseram-me ontem: "Você tem sorriso nos olhos".
Fui dormir com sorriso nos lábios.





PS: Analisando friamente, deve ser por isso que muitas pessoas riem de mim e de qualquer coisa que digo (afff... como se eu fosse muuuito engraçada. Às vezes, sinto-me uma palhaça, no bom e no mal sentido); ou se zangam comigo facilmente (juram que estou caçoando/ zombando do que dizem, mesmo se estou séria e atenta).
Eita, poivo dodo, sô!

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Estou me enchendo de bolacha e água. Já me disseram que preciso tomar um porre, pelo menos, uma vez na vida. Não sei... a bolacha me parece confortante. E ainda, como toda mulher moderna, fico com aquele peso de que vou engordar e me acabo nuns exercícios físicos. Fora os benefícios do “chocolate” para a produção de substâncias químicas que causam a sensação de “felicidade(?)”. Pois é, faz parte do pacote “entre na fossa por duas semanas e se sinta livre (ou pior do que antes, é a vida)”. Um dia ainda me afogo num boire. Já me contaram que algumas pessoas gostam de se fazer de vítima, digo, uma grande parte dos indivíduos inseridos na sociedade. Um dos mecanismos de cerceamento da inteligência, do qual poucas ou pouquíssimas pessoas se dispõem a sair, foi o que me disseram. E grita em meus ouvidos (dentro do fone): “A minha vida, eu preciso mudar todo dia pra escapar da rotina dos meus desejos por seus beijos...” e (com licença, vou fechar este clip horroroso do Word que não pára de olhar e piscar para mim e para a página... não é que ele pergunta se eu quero desativá-lo de vez?! Agora que ele percebeu?!) me lembrei de um verso da Hilda Hilst cuja leitura eu estava perdida, hoje, no meio da tarde: “Se te ausentas há paredes em mim. Friez de ruas duras. E um desvanecimento trêmulo de avencas. Então me amas? Te pões a perguntar. E eu repito que há paredes, friez. Há molimentos, e nem por isso há chama”. Quem sabe, sabe. E eu fico a me derramar nestas palavras, um dia ainda consigo dominá-las por inteiro, porque, confesso, algumas ainda me escapam, os sinônimos caçoam, os antônimos tergiversam, os pronomes brincam de esconde-esconde e as conjunções insistem em ser as mesmas (como aquelas “primeiras alunas” da sala que querem responder a todas as perguntas). Contudo já me provi de algumas armas: uso incessante do dicionário e uma “boa” gramática. No mais, só os verbos que trago aqui comigo, junto! Deve ser os quatro anos de jornalismo: “corte tudo, mas mantenha o verbo”. E o resto? Olho para os textos explosivamente metafóricos, substantivados, adjetivados, “pronomificados” e me pergunto: E daí? São fantásticos!

Adendo:
Outro dia, ao mostrar uma resenha (análise de “Esaú e Jacó”) para um colega, ele comentou: “Está ótimo! Sua linguagem é bem jornalística”. Não, não posso dizer precisamente qual foi meu sentimento frente a esta constatação alheia, só posso dizer que foi ambíguo. Primeiro, satisfação, afinal estava “ótimo” e minha graduação estava resumida ali em “linguagem bem jornalística”. Contudo, não era para ser “jornalístico”, entende? Era uma análise pretensamente científica e eu me deparei com o tamanho da minha restrição. Fiquei com um sentimento de limitação que me consumiu o resto da semana: Eu não sei fazer outra coisa! Obrigado pelo jornalístico, mas eu não queria escrever deste modo! Pelo menos naquele texto. Preferia um educadinho: “é, não está de todo ruim, mas tem traços analíticos”.
Daí veio o registro de um dos meus melhores professores de jornalismo, consolando meu grupo, que tinha o projeto de uma revista acadêmica: “Calma, acadêmicos escrevem muito mesmo. Vocês só vão precisar incluir [no orçamento] um frila especialista para cada tipo de assunto, porque sempre dá problema quando a gente [a classe, em geral] se mete a cortar [editar] este tipo de texto. Eles sempre reclamam e dá pau. Já soube de alguns que se recusam a dar entrevista por causa disto ou então exigem que a entrevista seja publicada na íntegra”. Caraca! Comecei a ficar com medo desta classe. Que cacete de povo metido! Põe lá a idéia central e boa! E se puder, com os verbos mais importantes, sem enrolar muito. Contudo, esqueci de informá-los, era segundo ano. Até o fim da faculdade, passei a entender a “fúria” dos acadêmicos-com-os-textos-cortados. Na maioria das vezes (pausa para a música em meus ouvidos: em francês, francês, francês, francês), uma edição não especializada pode reduzir os conceitos e literalmente destruir a construção teórica do autor. Tudo bem, retiro a metidez, mas que há uma boa técnica de embromation, isto há. E não são palavras minhas, são de dois professores universitários. Mesmo assim, há construções em que não se deve retirar nem uma vírgula, senão vira um “texticídio”. Vai entender, mundo louco!

Então, fiz só este “pequeno” adendo para expurgar o redemoinho que as mesmas palavras (afinal todos, teoricamente, não que as prioridades sejam as mesmas, têm acesso ao mesmo “vocabulário”) podem causar, inclusive em mim. De volta aos escritos com “imagens sem órbita” (aparentemente) que vi alguém se referir a um texto – muito bom, por sinal – eles me fascinam.
“Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar ‘bom dia’, de beijar o português da padaria”, não, isto não é um exemplo dos “tipos de linguagem” aos quais me referia, mas, ao ouvir este trecho berrando em meu fone, me deu uma vontade enorme de acordar embriagada por essas imagens e orbitar dentro delas!! Já pensou? E mandar a prova de amanhã, domingo, às favas e sair proclamando por aí: A sombra decapitada. Caiu fria sobre o mar... Quem foi a voz que chamou? Quem foi a voz que chamou? – Foi o cadáver do anjo. Que morto não se enterrou. Bater na porta do meu vizinho aqui, que nunca está em casa à noite, devolver o martelo e dizer: No mistério do Sem-Fim, equilibra-se um planeta. E, no planeta, um jardim e, no jardim, um canteiro... Ele vai perguntar: Você está louca? E eu vou responder: Não, de modo algum, sou Nabucodonosor que sonhou e se esqueceu! Oh! Venha, seja quem for, dizer sonho era o meu! Venha! Que me morro, por um sonho que se perdeu!
Depois vou mandar flores para... qual o endereço, moça? De Vila Rica ao Tejuco, lá vai carta, lá vem carta. Prendem o padre ou não prendem? Dificílima caçada! Uns dizem que já vai longe, pelo alto da serra brava; outros, que só sai de noite, fugindo, de casa em casa . Não entendi, moça. A senhora tem o CEP? Quem é o destinatário? Meninas de bicicleta. Que fagueiras pedalais. Quero ser vosso poeta! Ó transitórias estátuas. Esfuziantes de azul. Louras com peles mulatas . Vou correndo para a padaria. Ao chegar, leio bem alto o aviso que me permite o acesso à cozinha e rompo lá dentro, abraço o padeiro, dou um beijo em sua face e aqueles olhinhos vermelhos e sorriso gorducho vão me perguntar: O que aconteceu? Nada demais, senhor padeiro, só que quando ontem adormeci. Na noite de São João. Havia alegria e rumor. Estrondos de bombas luzes de Bengala (e pego uma “bengala” de pão e uso como microfone) Vozes, cantigas e risos ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei. Não ouvi mais vozes nem risos. Apenas balões. Passavam, errantes. Silenciosamente. Apenas de vez em quando. O ruído de um bonde. Cortava o silêncio. Como um túnel. Onde estavam os que há pouco. Dançavam. Cantavam. E riam. Ao pé das fogueiras acesas? – Estavam todos dormindo. Estavam todos deitados. Dormindo. Profundamente. Até aí, o vizinho já avisou o porteiro, que ligou para a administração do condomínio, que já chamou a polícia, passaram pela floricultura, onde a vendedora os recebeu: “vocês estão atrás da louca? Ela foi pra lá, na padaria”, e foram todos me encontrar. O padeiro tenta explicar: “ela deve estar sonâmbula. Diz que está todo mundo dormindo, mas acho que [sussura], na verdade, é ela mesma”. A polícia me pergunta: “O que tem a falar em sua defesa?” Eu digo: “Loucura! Gritou o patrão. Não vês o que te dou eu? – Mentira! – disse o operário. Não podes dar-me o que é meu”. – Vamos levá-la! Na delegacia, esbarro numa pobre mulher que, pela minha observação, foi presa por roubar bananas e ia para a mesma cela que eu. Sussurro em seu ouvido: Alguém devia ter contado mentiras a respeito de Joseph K., pois, não tendo feito nada de condenável, uma bela manhã, foi preso.

sábado, 27 de maio de 2006

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Outro dia desses aprontei um encontro diferente: consegui reunir quatro grandes personagens do Romantismo. Foi difícil por causa da agenda, mas foi uma conversa proveitosa.

Encontram-se Werther de Os sofrimentos do Jovem Werther, Gustav de Morte em Veneza, Romeu de Romeu e Julieta, Carlos de Eugénie Grandet e o “homem do penhor” de Criatura Dócil, que aparece como Dost (em referência ao autor Dostoiévsky):

Werther: Ó céus, ó vida! Será que ela me ama?
Gustav: Não fica assim, Werther! Pelo menos você conversa com ela! E eu que não sei ao certo qual o tipo de admiração que aquele menino do hotel causa em mim? Sua beleza , sua juventude, sua naturalidade, sua espont...
Romeu: Há-há! Vocês não sabem o que é amar uma mulher e ter seu destino separado por...
Carlos: Já sei! Duas famílias: Capuleto e Montéquio e blá blá blá! Duvido que alguém tenha um pior que o meu! Eugénie é linda, rica, formosa, mas tem um pai avarento que causa desespero. Além disto me mandou para bem longe dela...
Dost: Vocês têm que ser fortes!
Werther: Como ser forte? Explica-me!! Se este sentimento nobre, puro domina todo o meu ser e suga todas as minhas forças? À Carlota entrego todo o meu coração, minha alma...
Carlos: Segura! Segura! Ele vai se matar de novo!
Romeu: Ó Werther! Como eu o compreendo! Esta emoção que pulsa dentro de nós, leva-nos à loucura! A razão foge... o coração fica... a beleza de Julieta me encanta, seu sorriso me conforta! Seus lábios me fazem acreditar na supremacia da beleza feminina sobre a mente racional do homem...
Gustav: Realmente, a beleza é a porta de entrada para os devaneios da mente humana. É uma arte tão natural que chega a ser bela somente pela sua forma. Ou seja, pelo fato de existir! A essência é colocada de lado em nome do fascínio que a perfeição da construção humana é capaz de criar!
Dost: Vocês são uns fracos!
Carlos: Falou o “cara”!
Dost: Vocês têm que tomar a rédea da situação. Tem que ter domínio e poder sobre as damas! Não pode permitir que os anseios do coração dominem sua racionalidade.
Werther (chorando): Humpf... você diz isto, mas ao ver o desprezo de sua esposa também ficou louco...
Dost: Que nada! Fiz o que achei certo, coloquei-a no lugar dela. É isto que vocês deveriam ter feito...
Romeu: Mas não resistiu quando a viu doente!
Dost: Cuidei dela sim. Lógico, ela quase me matou! Apontou-me uma arma... é que eu fingi que não vi! E a culpa foi dela por nosso relacionamento não ter dado certo. Ela bem que poderia ser mais presente...
Carlos: É fácil colocar a culpa nos outros, não é? E você? O que me diz? Você dava atenção necessária para ela? Você é um covarde...
Dost: Ora vejam, quem fala! Você não lutou o suficiente para ficar ao lado de Eugénie e ela ainda, coitada, teve que pagar sua dívida... Covarde!
Romeu: Ei! Quem pode falar em coragem aqui é só eu e o Werther. Nenhum de vocês tem noção do que é morrer por alguém.
Dost: Nem quero saber!
Werther: Seu insensível! Todos nós vimos o seu desespero quando sua esposa ficou doente. Cuidou dela, não por “medo”; mas, sim, como se quisesse se desculpar por tudo que havia feito à ela...
Romeu: Galera, admitamos! Todos nós carregamos dentro de si este sentimento por alguém. E fomos capazes de cometer loucuras que ultrapassassem a razão que cada um tem dentro de si...
Gustav (cochicha): para um adolescente até que ele tem raciocínio
Carlos: Cada um tem sua concepção de racionalidade e, ao amar alguém, ultrapassou, nem que fosse o mínimo, este limite inconsciente.
Dost: É tenho que admitir... nunca pensaria que sentiria ciúmes da minha esposa. Muito menos em tratá-la com tanto afeto...
Werther: Então... não adianta sair me acusando de louco! Minha racionalidade foi ultrapassada. E meu limite é a morte para o que eu sinto por Carlota!
Carlos: Segura! Segura!
Romeu: O meu também! Este é o grande “barato” de amar!
Carlos: Deixa-me ver se entendi... É poder sentir este prazer de ultrapassar os limites da razão em nome de um sentimento que brota do fundo do coração
Romeu: Até rimou, que belezinha!
Dost: Isto mesmo! E, por mais rígido que você seja, esta paixão tomará conta de você e em algum momento você se dará conta disto...
Gustav: e se sentirá o mais belo dos seres humanos...
Romeu: o mais bobo...
Werther: o mais louco...
Carlos: o mais bem-resolvido...
Dost: o mais poderoso...

Devido à dificuldade e o horário corrido dos personagens, eles se despediram e foram embora. Nenhum deles entendeu muito bem como foram se encontrar ali.

Ah! Quanto a mim? Estava atrás da porta. Shhhh...

terça-feira, 9 de maio de 2006

Superação.

Estranho, meus melhores textos ou, pelo menos, os que mais gosto, eu faço dentro do ônibus (é o que mais tenho feito: curtas viagens), claro, em minha cabeça insana. Depois só restam frações, tópicos do assunto que vim “maquinando” no balançar back and forth do transporte coletivo. E não pensem vocês que concebo idéias vagas, sem sentido e depois uso o argumento da fragmentação para justificar alguma dificuldade em transpor a barreira entre o Plim! Tive uma idéia e o Pqp, como eu vou escrever isto no papel? Não que eu esteja completamente livre disto, mas a questão é que no ônibus eu penso em tudo: parágrafo, vírgula, corrijo ortografia, faço relações coerentes, descarto anacronismos, tento evitar figuras de linguagem, fico lá pensando. Depois vem o descer do ônibus, olhar o sinal, desviar das pessoas, lembrar da chave, atender o celular (que sempre toca nos piores momentos), esperar mensagem, avisar o porteiro, chamar o eletricista e pfff vai sumindo, como uma bexiga esvaziando. Confesso que há dias em que estou com tanta pressa de escrever, como hoje, que me comporto como se estivesse apertada para ir ao banheiro. Acredito que o porteiro, às vezes, acha que tenho alguma espécie de incontinência, tais os meus rompantes prédio adentro.

Eu ia falar de superação. Pois é, está escrito lá em cima. Vou virar completamente o assunto:

Faz tempo que preciso praticar um esporte, não por vaidade, tampouco por necessidade de conhecer gente nova (isto é necessário sempre, mas, no meu caso, não é o objetivo da atividade física. Por que digo isso? Ora essa, tenho amigas que vão para a academia – ora pois e desde quando isto é esporte? – para desencalhar, sim, porque só as encalhadas fazem isto). Vocês percebem que vai demorar para eu chegar onde eu quero, não é? Ou melhor, onde vocês querem. Ou melhor ainda, onde eu quero mesmo, porque eu estou escrevendo e, nesta condição, como diz Sartre (calma que tudo vai fazer sentido), “o escritor é um falador; designa, demonstra, ordena, recusa, interpela, suplica, insulta, persuade, insinua” e conduz.

De volta à procura pelo esporte, sábado de manhã, vi uma roda de Capoeira na praça do Rosário. Tomei coragem, interpelei um rapaz e perguntei se ele sabia onde tinha um mestre ali pelo Centro. Para encurtar: segunda-feira, à noite, fui treinar. E aquela eterna sensação da primeira aula: timidez abundante. Para mim sempre é uma superação. Entro humildemente; faço amizade com a moça aqui; o mestre se simpatiza com a minha pessoa ali; e, como tenho facilidade, acabo atraindo outras pessoas para falar comigo, o que aumenta ainda mais meu constrangimento, mas vou conversando num constante enrubescer; e, por fim, entro como visita e saio quase como “dona da casa”.

Trata-se do mesmo princípio, no meu caso, do que eu chamaria de “quebra-da-barreira-de-grandes-leituras”. Em casa, têm uns livros de filosofia, fragmentos de um discurso amoroso. Eu sempre morri de curiosidade de lê-los, mesmo sabendo que não ia entender lhufas. Por sorte, eu tive um semestre (o último da minha graduação) de Filosofia da Cultura, o que me ajudou a ter contato com alguns autores e a ter uma, nem que fosse esparsa, idéia de como “pensa” a Filosofia e, melhor ainda, de como escrever filosoficamente (um choque para os quase-jornalistas de 3 anos e meio de Sociologia). Ah- ah! Que pretensão a minha! Eu disse breeeeve idéia, uma noção assim bem longe, um tatear (do Kant) beeem levinho de como pensar e escrever filosoficamente; isto, sim, eu tenho que percorrer ainda alguns milhares anos-luz.

E cá estou eu com a minha vontade incontrolável de ler os clássicos, respiro fundo, tomo coragem e “interpelo” o autor: leio a introdução. Faço na cara-de-pau mesmo, sem medo de ser feliz, nem que seja por intermináveis vezes.
Começa o livro. Uma timidez enorme toma conta de mim, viro para mim mesma e pergunto: “Por que você está lendo isto? Mal consegue entender a primeira página!”. Mas, mesmo lendo uma página trezentas vezes, eu prossigo.
Confesso, tristemente, que leio escondida (portanto, se me perguntarem, não sei de nada), quero tentar entender (ou não) sozinha. Afinal, dependendo do círculo em que se vive, se você diz que está lendo tal livro, as pessoas vão te perguntar o que você entendeu; o que achou de tal conceito; se você já leu a crítica; se você viu a nota de rodapé em que o autor se contradisse; vão relacionar com outros clássicos (que você ainda não leu) e perguntar o que acha; daí você fica com aquela cara de “ahn?” e usa a velha desculpa do "ainda estou no começo". Vejo um certo grau de esnobismo em algumas atitudes como aquelas, mas deixa pra lá.
Estimulante mesmo é a troca de impressões, dúvidas, divergências, discurso dos conceitos. O que importa é que eu estou me superando, não no sentido de ficar superior a alguém, mas de vencer minhas próprias barreiras. E, assim como na Capoeira, de visita eu me transformo em “dona da casa”. Ou seja, quando eu supero (como é o caso do livro que estou lendo) a leitura se torna tão emocionante quanto à dos romances que adoro ler.
E o autor vira quase um amigo meu. ;)


PS: Estou toda dolorida por conta dos esforços físicos, mal consigo andar. Com a leitura deve ser assim também: a engrenagem, no começo da lubrificação, é dificultosa e faz a gente pensar em mil coisas sem sair do lugar; depois, tudo flui... inclusive os jogos dentro da roda :)
Livre. Book. Free.

Hoje acordei cedo. Fazia tempo que não tinha essa sensação da completude da manhã ou, pelo menos, da sua extensão. Não por falta do que fazer, mas sinto que começo a entrar em outro mundo. A noite, pra mim, sempre foi sagrada e dedicada ao descanso físico e mental. O sono infantil incontrolável tomava-me tão profundamente que não me permitia fazer mais nada. Hoje, consigo administrar isto e, dependendo do trabalho, fico até três horas da manhã em pé, sem café. E geralmente vou dormir não pelo sono, mas da consciência da implicação que esta atitude pode levar: mais horas perdidas pela manhã.
Sempre fui do dia. Tenho até hoje uma forte resistência em “virar o dia”. Ou seja, não dormir, ver o sol nascer e tudo mais. Para mim, isto nunca teve nenhuma veia romântica, pelo contrário, ver o amanhecer (sendo que eu não dormi) traz-me angústia e pânico. Não sei porquê. O motivo não interessa.

O romantismo, digo, este ar contemplativo dos fenômenos atmosféricos sempre esteve expresso nos horários de luminosidade. Qual não era minha alegria em adivinhar, aproximadamente, as horas quando o sol estava a pino, meio-dia. E ver o tempo passar pelo comprimento das sombras que ele produzia no chão. Minhas observações chegavam a ponto de tentar calcular a distância de alguém atrás de mim pela minha posição em relação à sua sombra. Ok, ainda faço isto. Há pouco tempo vi, de perto, um relógio de sol. Já conhecia, sabia como era e funcionava, mas não tinha me aproximado. Fascínio. Lembro-me perfeitamente: havia um desenho animado cujo personagem principal usava um relógio solar de pulso, achava o máximo. Aliás, isto faz parte dos meus desejos de “consumo” não realizados (outro interessante é um mouse em forma de caneta).

O fim da tarde é meu período predileto. Nem escuro, nem claro. E você sabe que o resultado é a noite. Como o semicerrar dos olhos para o sono. É diferente do nascente cujo destino é a luminosidade máxima do dia. É aquele momento de transição, de calmaria, como a vigília antes do profundo descanso e o desfecho com o céu azul-escuro, a primeira estrela, até a chegada sutil da Lua e suas imensuráveis companheiras luminosas. Aqui em Campinas, tampouco em São Paulo, essa visão da noite é tão bonita quanto em Lorena. Mas, devo confessar, o pôr-do-sol campineiro é um dos mais belos que já presenciei; e a cidade de São Paulo uma das mais fascinantes que conheci.

O céu pesado da madrugada, eu não costumo apreciar. A não ser, é claro, que eu tenha dormido muito bem e tenha acordado às quatro para um compromisso qualquer. Mesmo assim, assistir o nascer do dia me dá uma sensação de não-completude do processo do sono. Não vou negar que o espetáculo é maravilhoso e agradabilíssimo aos olhos, mas eu não consigo compartilhar visceralmente desta apreciação. Como a obra de arte, por exemplo, há aquelas que agradam aos olhos e outras que aos olhos também, mas o interior se exterioriza e dá a sensação de se tornar participante do processo de execução do objeto artístico. Não sou uma apreciadora exímia das artes, mas o contato que tive até agora me permitiu vivenciar estas experiências.De volta à agradável sensação de acordar cedo, dormir bem à noite e apreciar o dia, para me policiar de eventuais “excessos” do sono, ou seja, para me deslocar do planeta “Sonífera Ilha, descansa meus olhos”, mudei meus (poucos) móveis de lugar. Levei minha “cama” (dois colchões de solteiro empilhados) para o quarto. Soa estranho, não? Eles não deveriam estar lá? Pois é, isto acontece porque a janela do quarto é enorme e a cortina não eficiente no quesito bloqueio-da-luminosidade. Portanto, a “cama” fica(va) na sala até eu conseguir comprar uma mesa de estudos decente, o que me forçaria a levá-la para o quarto. Ainda estou sem a mesa, mas os colchões empilhados foram pra lá. Por mais que eu lute com os travesseiros em meu rosto e os vizinhos espiando, oito horas, no máximo, já estou desperta, totalmente tomada pelos raios de sol.

[sexta-feira, 5 de maio]

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Passei o fim de semana em Lorena. Não visitei muita gente, mas não existe nada melhor que rever os amigos depois de tanto tempo. Trata-se do mesmo princípio de satisfação de beber água quando estamos com sede; comer quando estamos com fome; dormir quando estamos com sono; ou seja, coisas que parecem banais, mas são essenciais e, quando damos falta, passa a ganhar prioridade.
Não importa a quantidade, mas a qualidade (digo isto porque há uns três, quatro anos eu não seguia impreterivelmente esta lógica). E me sinto privilegiada, pois, no meu caso, as duas coisas andam praticamente juntas. Quando digo quantidade serve tanto para o número de pessoas, quanto para o tanto de tempo dispensado ao lado delas.

Viagem

(e entenda um pouco do Brasil, ou dos brasileiros, ou de uma brasileira, ou de tudo, ou de nada)
Nota: minha poltrona era a quatro, ao lado do motorista.

Lorena
Quase perco.

Guará
Rodoviária lotada. Não tinha lugar para estacionar.
Dez minutos. Quinze. Vinte.
-- Motorista, ali!
-- Obrigado
Tsccchhhhiiiiii. Tsssccchhiii.
Uma caminhonete particular estacionada exatamente no lugar do ônibus: dentro da plataforma.
As pessoas embarcam no meio do pátio.

Aparecida
Esterco por toda a única e principal avenida cujo acesso era para a rodoviária. Descobre-se: Congada. Tudo parado. Cavalo, criança, moto, pipoqueiro, carroça, camelô e quatro metros de largura têm a rua.
-- Moço, o senhor é daqui?
-- Sim.
-- Se eu virar aqui, chegamos na rodoviária?
-- Não sei.
-- Alguém sabe? Moça, moço, por favor.
-- Não sei, não, dona.
-- Motorista, vira. Depois a gente vê.

Quarenta minutos: três quarteirões. Uma carriola na rua. Quatro ônibus manobram, ao mesmo tempo, para desviar. Rodoviária. Transtorno. Todos querem entrar. Ninguém quer esperar o próximo.

Dutra
Motorista quase Kill Bill e os passageiros. Meu ônibus alcança o outro que saiu uma hora depois da gente, do mesmo lugar.

Taubaté
Mais pessoas. Pouco lugar.

-- Não tem espaço pra todo mundo.
-- Como assim, motorista?
-- Têm que esperar o outro.
-- Mas estamos aqui há quase uma hora.
-- Atrasamos em Aparecida. O outro está vindo. Agora não sei quem pegar: quem é das quatro ou das quatro e meia.

Discussão. Vinte minutos.

-- Dá licença, gente. Motorista, o senhor tem que embarcar quem é das quatro. Se você saiu antes do outro em Lorena, provavelmente, seus passageiros são de quem é mais cedo. Óbvio, não?!
-- Como assim? Fiquei em dúvida. Não estou certo. E se eu coloco e dá problema?
-- Não vai dar. As passagens foram vendidas por computador, olha. E, geralmente, não ocorre ter duas passagens para a mesma poltrona. Se o senhor saiu mais cedo, é claro que você vai embarcar quem é do horário anterior, não?!
-- É... você tem razão. Hey, gente!!! Aqui só aceito passagem para às quatro!! Quatro e meia é no outro!!

Meia hora.

Duas mulheres:
-- Motorista, temos o mesmo número de poltrona.
-- Como assim?
-- As duas são onze.
-- Ai, meu Deus. Comissário, por favor.
-- Pois, não.
-- Elas têm um problema no número da poltrona.
-- Deixa eu ver...Este é o número da plataforma, sua poltrona é três, aqui na frente.
-- Ai, é mesmo! Ai, motorista, desculpa. [...] Oi, moça, posso sentar? Ai que vergonha, confundi tudo.
-- Claro. Fica calma, acontece. Já fiz isto.
-- Você é daqui?...


Dutra-Dom Pedro

Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá


Campinas
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
-- Você vai gostar de Campinas. Quando precisar, pode ficar em casa.
-- Obrigada! Qual seu orkut?

:\\\\

Humpf. Um dia ainda acabo com isto.





Rodoviária

Fila enorme: sai da estação e ocupa todo o quarteirão (da Barão de Itapura ou, pelo menos, o que seria continuação dela).

Um ser atrás de mim:
-- Meu Deus, que fila é essa??
-- Olha, querido, não sei. Só espero que não seja do banheiro. Estou apertadíssima.
-- Hahahah. Acho que está vendendo ingresso pra algum super show que não estou sabendo.
-- Hahahah. Creio que não. Campinas não tem super shows e venda de ingresso na rodoviária, na volta de um feriado, só se for pegadinha.
-- Heheheh, verdade. Será que é fila do guichê pra São Paulo?
-- Acho que não. SP tem ônibus de cinco em cinco minutos.

Desembarque.

Sim, a fila era para comprar passagem rumo à capital. Fiquei abismada.
Se Campinas estava assim, imagina São Paulo.

Tsc, tsc...

C'est Brasil.

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Aviso de jornalista e para jornalistas:

Assunto: Festa na Belezinha
Ae galera!!
Em comemoração ao níver da Belezinha e ao seu apartamento novo e seu casamento com o filósofo, venho convidar a todos para um rega-bofe na casa dela, nessa quinta-feira!!
Ela avisa que só tem um sofá, 4 banquetas e uma cadeira - ou seja, cheguem cedo ou vão ficar de pé! Ah, e é pra levar cerveja!! Vamos todos!! =]
Ela mora na Rua Professor Sílvio Rosa, ops!, Professor Luís Rosa, XX, ap XX. Às 20h, ok??
Beijo do Deco =]
P.S. Cabeção, ela disse que é pra vc ir e que vc pode dormir lá...


As informações contidas são de inteira responsabilidade do autor (Deco Ribeiro).
Alguns dados foram omitidos para manter a privacidade da anfitriã.
Quanto ao casamento... Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás
Fala sério!
Meu objetivo não era dissertar sobre o passado, mesmo que fosse o mais próximo. No entanto, as pessoas costumam ser tão iguais: as atitudes, as falas, os gestos, enfim, de tudo isso não surgiu um assunto interessante para ser tratado ainda esta semana.
Nossa, estou impressionada com a minha, digamos, cara de pau. Vou ser sincera de uma vez, até que ouvi uns diálogos simpáticos sobre como proceder depois de fazer uma cesária, o que seria do mundo se não fosse a ultrasonografia, uma história de amor, e, ah, me lembrei de um fato revoltante: meu dvd se recusou terminantemente a rodar os três minutos finais do filme “O nome da Rosa”. Fiquei com aquele sentimento de “ahn? E...?”. Whatever, a questão é a seguinte: eu quero falar sobre o passado e ponto. E, entre um ônibus e outro, uma coisa perdida e outra, me recordei de uma balada que eu fui um mês atrás.
A intenção do programa era se divertir. Não havia, para mim e minha amiga, o propósito de flertar, mostrar o cabelo novo, a roupa nova, encontrar com alguém, o plano era: beber (no meu caso, não muito), dançar e conversar (agora, sim, muito). Colocados nestes termos, fica mais fácil entender porque, na linguagem dos meus contemporâneos, “perdi meu tempo pensando” sobre isto.
Há tempos não sabia o que era comprar ingresso, enfrentar fila, calcular consumação, mostrar RG (sim, ainda preciso disto), ser revistada, topar com gente bêbada logo à meia-noite, entre outras coisas. Senti-me alheia a tudo aquilo e, (re)criada esta distância, passei a observar melhor os comportamentos. Como de perto ninguém é normal, de longe menos ainda e, pior, é igual. Bom, se ser normal é ser igual, desfaço terminantemente esta conjectura sobre a queda de normalidade à longa distância.
Entramos na balada. Reconhecimento territorial. Parada estratégica. Indagação: “Por que a luz está acesa?”. Não, não é para te enxergar melhor, chapeuzinho vermelho. Pois é, a decoração e as paredes eram brancas e o local estava totalmente iluminado. Não havia aquele clima de balada, luzes apagadas, globos coloridos piscando, fumacinha para todo lado, a não ser pelas pessoas igualmente “bem-arrumadas”. E a festa continua...
Entre um gole e outro minha amiga vai falando: aquele é fulano, aquele é ciclano, este trabalha aqui, aquele trabalha acolá. Num súbito, eu e ela ficamos paradas sem dançar, sem conversar, só olhando e a inconformidade: o que significa isto?
Parecia uma festa na casa de algum “boyzinho” conhecido. Aquela falsa idéia de que todo mundo se conhece, soltando largos risinhos uns para os outros (afinal todos se viam); de tempo em tempo, para eles, era necessário mostrar indiferença também, deviam acreditar que, agindo assim, aproximavam-se de alguma atitude “aristocrática”; bastava concentrar a atenção por cinco minutos e você descobria quem ficou com quem, quem é amigo de quem e os “tipos” da balada tais como o galinha, o cafajeste, o tímido, o perdido, o babaca e o bêbado; a posição dos copos e do cigarro nas mãos era idêntica; parecia que uma festa na casa da Barbie tinha criado vida; e aquela luz monótona e uniforme acesa... Para quê? Dê-me uma boa razão que não inclua os burguesinhos de classe média mostrar-se uns aos outros. Pode falar que eu refuto. Qualquer outro motivo para aquilo, com certeza, passa pelo filtro da exibição, principal característica do alcance de status.
Quem ousou puxar conversa comigo, não se deu muito bem. Fingi-me de estrangeira, era assim que me sentia. Não tinha a mínima vontade de conversar com quem quer que fosse. Inútil, a decepção foi ainda maior: a perplexidade das pessoas com a minha pseudonacionalidade fizeram-nas mais ridículas do que pareciam. Tudo isto me incomodou profundamente, tanto por eles quanto por nós que estávamos incluídas neste joguete social. Fiquei o resto da balada pensando e não me conformei comigo, nem com eles, nem com a minha atitude passiva, nem com a deles. Resultado: saí com aquela sensação de vazio no estômago, aquela dificuldade de engolir qualquer coisa e a cabeça fervendo (olha que eu não estava de porre).


Comentário antes de desligar o computador e dormir:
Estava na cantina da faculdade e vi um mega-cartaz, com dizeres em mega-letras e um mega-desenho, que incitava os alunos a irem para uma mega-festa, num mega-lugar, certamente, com pessoas mega-legais. Ora essa, para se informar sobre uma palestra, um evento cultural, um grupo de estudos, uma disciplina alternativa, uma oficina, uma aula extra de línguas, temos que caçar entre as parcas folhas A4, impressas em preto e branco, distribuídas aleatoriamente e não em todos os cursos, penduradas nos murais em meio aos avisos específicos, às grades de horário e penduricalhos dos alunos. É mole? Como observou aquaman: na Unicamp, são estudantes; na Facamp, são alunos. Quanto ao mega, a aula magna fica por conta de JM com o termo “Big”, que dá no mesmo.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

Hoje é meu aniversário.
Grande coisa, recebi um parabéns que não incluísse minha mãe, meu pai e meu namorado. Não esperava uma festa glamourousa, flores pela casa, helicóptero no céu do meu apartamento, nada. Só queria algo além do orkut, essa porra que substitui qualquer contato mais "pessoal" e ainda te expõe sob os olhares vigilantes dos(as) invejosos(as) e fofoqueiros(as). E os últimos ainda usam isto para te difamar, extrema falta do que fazer. Revolta. Este é o nome do meu dia.
Uma carta me ganharia facilmente. É isto, uma carta. À mão, claro. Com a letra... uhn... não importa qual fosse, mas legível, para eu ler pausada e incessantemente, linha por linha. Melhor seria se fosse pelo correio para ter aquela sensação maravilhosa: a gaveta de correio cheia, o selo, o carimbo, o nome do remetente, do destinatário, a curiosidade de quem viu a carta chegar, o elevador, as chaves jogadas, o sofá, a abertura e nada de cartão, de desenhinho, de votos prontos de felicidade e sucesso, só o texto vivo. O serviço de correio não chegou em tamanha eficiência e qualquer carta enviada hoje chegaria, sei lá, quarta ou quinta-feira. Mas confesso que ainda tenho esperança de receber uma: "em mãos".
É o que me resta e o dia ainda não chegou ao fim e o carteiro também não.
Se todo mundo, supostamente, sabe que gosto não se discute, porque isto ainda é critério para avaliar/julgar alguém? Muita gente já escreveu sobre isto, muita gente concorda, discorda, não tem opinião sobre isto, enfim, dane-se, estou revoltada. Nós somos a somatória de nossos gostos? Há quem multiplique, ou seja, quem faça dos gostos impostos a própria encarnação da personalidade. E, sendo assim, torna-se uma falsa pessoa, no sentido de que se apropria de gostos alheios e/ou construídos (por vários motivos sejam eles quais forem) e acredita, a partir daí, ter criado um espectro imenso sob o qual pode se sustentar tudo o que a compõe como indivíduo dentro de uma sociedade. Então é isso? É assim que funciona? Que porra é essa?
Dentro de somatória, pode entrar todos os tipos de caracterização possível, uma massa difusa, massa condensada, rede vasta, malha de interesses, qualquer coisa que una. União. Outra coisa que eu não entendo, dentro disto tudo. De alguma forma, a partir de seus critérios de gosto ou o que alguém acredita sê-lo, você encontra seu espaço, ou melhor, te empurram, te delimitam e te impõe seu espaço e, se você não estiver satisfeito, cale-se, porque você não sabe do que está falando. Sabe por que? Simples, uniram tudo que achavam que era critério de julgamento e pimba! Toma, seu lugar é este. Mas gosto muda, não muda? Quem nunca se fartou de comer algo e hoje tem asco pelo alimento? Ou ouviu aquela música até os ouvidos detectarem a primeira nota num raio de 10 quilômetros e martela irritantemente sobre a sua cabeça? Não aguenta mais ver aquela estampa, inicialmente, linda da camiseta? Não vou me perder por aqui. Se muda, as pessoas mudam. Até aí, absolutamente nada de novo. E os espaços? Não, eles não mudam, quem faz isso são as pessoas. Ou será que eles mudam também? Porque eles são formados de pessoas, e se elas mudam, tudo muda. E a união? Entra na dança? E como ela faz isto sem se transformar em desunião? Então espera aí. Nesse emaranhado de mudanças, seu "espaço" é delimitado assim: zás e foi. Num determinado momento, não sei como, uniram tudo (e olha que estamos falando de gosto em diversos campos), delimitaram o seu espaço e voilá, "bem-vindo", ou "mal-vindo" se descobrirem alguma coisa que não se encaixe e daí, fora! Reorganização constante dos espaços. Ou seria, desorganização? Minha cabeça está fervendo. E nesta constante babel de mudanças de pessoas, gostos e espaços umas julgam as outras. Afinal, que porra é esta?